Resenha: A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais
DOI:
https://doi.org/10.18593/r.v50.36667Keywords:
Resenha, Jonathan HaidtAbstract
O livro, A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais, está organizando em quatro partes e doze capítulos. Ao final de cada capítulo o autor apresenta um pequeno resumo, o que torna a leitura bem agradável e de fácil entendimento. Percorrendo uma linha do tempo que se concentra, especialmente, a partir de 2010, o livro explora a deterioração da saúde mental de crianças e jovens. Na narrativa apresentada, encontramos argumentações que, desse período em diante, inicia socialmente um processo de reconfiguração da infância, com desmantelamento da existência conectada com a realidade de jovens e crianças, efeito da dependência do celular dessa geração. Em que pesem os prejuízos ocasionados pela falta de relação entre as pessoas e com a natureza, o autor argumenta que é possível reverter o impacto tecnológico com ações que envolvem a família, a escola e a sociedade. A reflexão construída apresenta dados científicos alarmantes sobre saúde mental infantil e uso de tecnologia, gerando preocupações acerca do futuro da humanidade. Essas ponderações tornam geram, no leitor, perplexidade e inquietação com o cenário atual e suas possíveis consequências.
Na introdução intitulada, Crescendo em Marte, o autor nos convida a imaginar que estão recrutando crianças para integrar a primeira colônia humana em Marte, sinalizando riscos e incertezas que permeiam essa experiência. Incrédulo, pergunta: como pais consentem? Situa que a virada do milênio trouxe mudanças profundas; empresas de tecnologia revolucionaram o cotidiano. Adultos, jovens e crianças vivem em um contexto de transformações constantes. De modo pouco efetivo, questionamos os impactos dessas inovações em nossas vidas, sem de fato perceber como a era digital molda comportamentos e relações. Pontua sobre a necessidade de refletimos sobre os limites éticos dessas mudanças aceleradas, em que a chamada geração Z, nascida após 1995, cresceu em um mundo digital sem precedentes. Sua infância, marcada por menos brincadeiras e mais navegação online, revela uma mudança significativa nos padrões de desenvolvimento e existência.
O texto inicial alerta que o impacto dos artefatos tecnológicos na saúde mental dos jovens permanece largamente inexplorado. A exposição incessante às alegres postagens online marcou profundamente uma geração, cujas vivências cruciais foram esculpidas pelo fluxo constante de conteúdo de amigos e desconhecidos, numa dinâmica virtual que molda histórias e percepções. A análise realizada pelo autor lança luz sobre uma transformação social crucial, ainda pouco compreendida; é como se essas crianças vivessem em Marte, sem interações e longe do mundo real. Ao final da introdução o texto afirma que, duas tendências são responsáveis por tornar as crianças dessa geração ansiosas: a superproteção no mundo real e a subproteção no mundo virtual.
A parte 1: A onda Gigante, é composta de um único capítulo intitulado O aumento repentino do sofrimento. O autor apresenta dados alarmantes sobre o aumento de transtornos mentais entre jovens, correlacionando-os ao uso excessivo de tecnologia. Pesquisas revelam que adolescentes dedicam mais de sete horas diárias a dispositivos eletrônicos, sinalizando o surgimento de uma ‘infância baseada no celular’. Esta nova realidade marca o fim da infância centrada em brincadeiras, agora deslocada para a virtualidade. A reflexão alerta que, inadvertidamente, conduzimos um experimento social sem precedentes, cujas consequências apenas começamos a compreender. Na analogia empreendida pelo autor, é como se tivéssemos enviado nossas crianças à Marte para crescer sem noção do que estamos fazendo ou permitindo acontecer.
A parte 2, O pano de fundo: o declínio da Infância baseada no brincar, está subdividida em o que as crianças precisam fazer na infância; modos descoberta e a necessidade de risco no brincar; puberdade e as mudanças na transição para a vida adulta. Ao longo do texto o autor demonstra como a “[...] infância baseada no celular será capaz de alterar a interação complexa entre desenvolvimento biológico, psicológico e cultural” (p. 63). Evidencia o movimento vivido pelo distanciamento do mundo real para se aproximar cada vez mais do mundo virtual, por meio da perda de sintonia e adesão ao conformismo: “As redes sociais são, portanto, a máquina de conformidade mais eficaz já inventada. Elas podem definir o modelo mental do que é um comportamento aceitável para um adolescente em questão de horas [...] (p. 75). Em certa medida o capítulo concentra-se no alerta, “Se realmente queremos mantê-los [crianças e adolescentes] seguros é preciso adiar a sua entrada no mundo virtual e deixá-los brincar no mundo real” (p. 85). Isso porque habilidades físicas, psicológicas e sociais funcionam como uma vacina para ansiedade, deixando as crianças mais confiantes e preparadas para outras situações. A antifragilidade, ou seja, deixar as crianças viverem a vida real, seria a chave para resolver muitos quebra-cabeças relacionados ao desenvolvimento humano. Erros, acertos e riscos controlados são importantes e necessários para o crescimento e a aprendizagem, assim, ‘prosperar’ no mundo real aconteceria para a infância baseada no brincar. O acesso precoce das crianças a smartphones compromete suas relações e experiências e, na puberdade, segundo período de reconfiguração cerebral mais rápida da vida, afasta os jovens do contato presencial.
Nessa linha de pensamento o autor argumenta que a infância moderna sofre uma transformação radical. O celular, onipresente, traz consigo quatro ameaças críticas: isolamento social, insônia crônica, dispersão mental e dependência digital; desse modo, a Geração Z, paradoxalmente hiperconectada e isolada, enfrenta desafios únicos. Sua vida social, expandida globalmente, estreita-se localmente e esta dicotomia gera consequências alarmantes, alterando profundamente o desenvolvimento infantil e as relações interpessoais. Além disso, o texto demostra com dados e pesquisas como e por que as redes sociais prejudicam mais as meninas que os meninos: “Meninas são especialmente vulneráveis aos danos da comparação social constante porque apresentam índices mais altos de um tipo de perfeccionismo: aquele socialmente prescrito” (p. 190), além de estarem mais sujeitas a predadores e assédio, entre outros fatores.
Já os meninos, “[...]a indústria da tecnologia encontrou maneiras cada vez mais atraentes de ajudar os meninos a fazer o que bem quisessem, sem os riscos sociais ou físicos que a satisfação desses desejos implica” (p. 227). Assim, apesar de meninos e meninas utilizarem as tecnologias de maneira diferente, terminam “[...] perdidos em meio a inúmeras redes de contatos descorporificadas” (p. 238). Ainda nessa terceira parte da obra o autor recorre às tradições antigas e à psicologia moderna para demonstrar como o uso das tecnologias afeta, inibe e neutraliza práticas espirituais.
A quarta parte do livro é dedicada a defender que uma infância saudável requer esforços coordenados. O autor revela como ações conjuntas podem mitigar os efeitos nocivos do uso excessivo de celulares por crianças, ou seja, defende que há saídas possíveis e exequíveis para superar a massa de crianças e adolescentes ansiosos da contemporaneidade. Nessa missão, governos, empresas de tecnologia, escolas e pais têm papéis cruciais, unindo forças com potencial para reverter danos e promover um desenvolvimento infantil equilibrado, livre dos perigos da dependência digital.
Ser pai, mãe ou educador hoje é um desafio imenso, mas nada se compara à complexidade de ser crianças e adolescente, especialmente a partir da segunda década do século XXI. Navegamos um cenário tecnológico vertiginoso, que pulveriza nosso foco e redefine nossas conexões. Nesse cenário lidamos com o conhecimento que temos deste novo mundo em constante mudança, mas muitas vezes sem saber a real dimensão dos impactos que celulares, redes sociais e a internet têm trazidos à vida humana. É preciso um esforço conjunto entre sociedade, famílias e governo, este último na formulação de políticas públicas, no sentido de pensar e agir para oferecer outras possibilidades de interação com às crianças e adolescentes com conexões reais entre si e com o mundo
Em sua conclusão, Trazendo a infância de volta para a terra, o livro retoma quatro sugestões que podem colaborar, enquanto ação coletiva, para enfrentar essa situação problemática: oferecer smartphones só depois dos 14 anos; redes sociais só depois dos 16 anos; proibir smartphones nas escolas; oferecer muito mais brincar livre e independência na infância. Além disso, acrescenta duas medidas práticas: fale e junte-se: “Falando e apoiando as quatro reformas fundamentais, você inspirará muitos a se juntarem à causa. Se fizer parte da geração Z, a sociedade precisa urgentemente da sua voz. Suas palavras serão mais poderosas de todas” (348).
A viagem experimental à Marte colocada como hipótese no início do livro é bastante interessante para pensar a sociedade atual. Com a obra refletimos sobre a criação de nossas crianças, seu desenvolvimento comprometido pelo acesso descontrolado à tecnologia e os impactos devastadores que essa condição pode gerar à existência infantil e juvenil. As referências recorrentes à missão espacial nos capítulos ampliam essa perspectiva, expondo as consequências de nossas escolhas na formação da próxima geração. O contraste entre a ambição interplanetária e os desafios terrestres ressalta a urgência de reavaliarmos nossas prioridades educacionais e tecnológicas, nos impondo a tarefa de avaliar criticamente o uso da tecnologia e oferecer outras oportunidades de vivência para crianças e jovens. O brincar, vital para as crianças, permite que elas interajam com o mundo, dando-lhe novos significados; é assim que participam e absorvem a cultura. Ao reduzir o tempo de brincadeira, limitamos suas interações sociais e as expomos a riscos. Precisamos equilibrar tecnologia e brincadeiras para proteger o desenvolvimento infantil saudável, bem como construir novas formas de sociabilidades radicadas no mundo real para os adolescentes.
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HAIDT, Jonathan. A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. Trad. Lígia Azevedo. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2024.
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