Governamentalidade e avaliação em larga escala: o SARESP como instrumento de controle na educação paulista
DOI:
https://doi.org/10.18593/r.v50.37541Palavras-chave:
avaliação em larga escala, governamentalidade, contracondutaResumo
o objetivo deste artigo é apresentar, refletir e analisar, criticamente, o Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (SARESP) à luz do debate sobre governamentalidade, evidenciando seus limites. Parte-se da seguinte problematização: de que modo o Sistema de Avaliação do rendimento Escolar Paulista em um contexto marcado por elevado centralismo, gerencialismo e padronização curricular tem se constituído como mecanismo de regulação dos indivíduos na educação escolar? O SARESP é uma avaliação externa aplicada anualmente, desde 1996, pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo com o objetivo de diagnosticar a evolução da educação básica paulista. Parte-se do pressuposto de que essa política de avaliação é um dispositivo disciplinar e um instrumento de poder que gerencia os processos formativos pela lógica neoliberal. Metodologicamente, a partir do estudo bibliográfico e do suporte teórico de Michel Foucault, principalmente dos conceitos de governamentalidade e de dispositivo, pretende-se discutir de que modo esse dispositivo governa as existências escolares, reduzindo-as ao desempenho, ao gerenciamento dos corpos e ao utilitarismo. Como tentativa de se contrapor ao gerencialismo escolar, utiliza-se da crítica foucaultiana como mecanismo de não ser governado dessa maneira. Vimos nesse referencial filosófico uma tentativa de se compreender a formação escolar não pelo viés da eficiência e da produtividade, mas da contraconduta.
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