Da educação do campo ao direito ao campo? Práticas e discursos situados do rural português

Autores

  • Emiliana Marques Universidade Federal de Viçosa
  • Tiago Castela Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

DOI:

https://doi.org/10.18593/r.v47.28222

Palavras-chave:

Educação do Campo, Pós-Colonialismo, Direito ao Campo, Práticas Educativas, Portugal

Resumo

Face à literatura da urbanização planetária, e informado pela história da Educação no Campo no Brasil, este artigo examina o potencial do modelo teórico de um Direito ao Campo, inspirado pela teoria do espaço-tempo social de Henri Lefebvre. O modelo de um Direito ao Campo, em desenvolvimento através de investigação doutoral, inclui o reivindicar de espacialidades próprias do campo, assim como o direito à deliberação propriamente política dos habitantes sobre o futuro. Constituído no final do século XX no Brasil, o movimento da Educação do Campo tem contestado a Educação Rural enquanto programa de governo das subjetividades que beneficia os cidadãos privilegiados, já que associa o aparelho estatal da educação ao fomento da desterritorialização—termo que utilizamos para abranger o deslocamento forçado, e também a expropriação das subjetividades, evocando Butler. A partir deste legado, o artigo reflete sobre o início de uma etnografia de práticas educativas quotidianas no espaço rural português—onde não existe atualmente uma distinção abissal no ensino formal—que articulam a ideia de um Direito ao Campo. O artigo conclui sugerindo a utilidade para a disciplina da Educação de se concentrar nas possibilidades da circulação de práticas críticas de uma racionalidade colonial, entre espaços rurais em Portugal e no Brasil.

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Biografia do Autor

Emiliana Marques, Universidade Federal de Viçosa

Emiliana Marques é professora do curso de Licenciatura em Educação do Campo, com habilitação em Ciências da Natureza, do Departamento de Educação da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Doutoranda do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, investigando relações entre educação, práticas sociais quotidianas e descolonização do conhecimento a partir do campo em Portugal continental. Licenciada em Educação Artística com habilitação em Artes Cênicas, pelo Centro de Letras e Artes da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Uni-Rio), Bacharelada em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mestre em Educação pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). É praticante e multiplicadora do Método do Teatro do Oprimido.

Tiago Castela, Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

Tiago Castela é historiador da arquitectura e do urbanismo, e arquitecto. Lecciona e faz investigação sobre a história da dimensão política da arquitectura e do urbanismo, com enfoque no sudoeste da Europa e no sul de África no século XX. É licenciado em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, e completou em Dezembro de 2011 um doutoramento em Arquitectura, no programa de História da Arquitectura e do Urbanismo, na Universidade da Califórnia, Berkeley. É investigador permanente do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra desde 2016, onde integra desde 2012 o núcleo de estudos sobre "Cidades, Culturas e Arquitetura" (CCArq). Acredita que é crucial para a investigação ser efectuada em articulação com práticas pedagógicas inovadoras, combinando métodos estabelecidos com a experiência espacial e trocas de conhecimento com cidadãos.

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Publicado

10-08-2022

Como Citar

MARQUES, E.; CASTELA, T. Da educação do campo ao direito ao campo? Práticas e discursos situados do rural português. Roteiro, [S. l.], v. 47, p. e28222, 2022. DOI: 10.18593/r.v47.28222. Disponível em: https://periodicos.unoesc.edu.br/roteiro/article/view/28222. Acesso em: 8 dez. 2022.

Edição

Seção

Seção temática: Educação do Campo: análises e resistências em movimento