https://doi.org/10.18593/r.v50.39889

SESSÃO TEMÁTICA 2025

Formação de professores no Brasil

Entrevista com o professor Dr. Bernard Charlot

Juares Thiesen

Maria Roseli G. B. de Sá

Marilda Pasqual Schneider

O diálogo, realizado14 de julho de 2025, percorre questões centrais da obra de Bernard Charlot, articulando suas reflexões sobre a docência, a educação como humanização e os desafios contemporâneos que interpelam a formação de professores.

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Bernard Charlot é professor emérito da Universidade Paris 8 (França), pesquisador reconhecido internacionalmente por suas contribuições à teoria da relação com o saber e aos estudos sobre sentido, subjetividade e educação. Atuou como professor visitante em diversas universidades brasileiras, notadamente na Universidade Federal de Sergipe, onde coordenou grupos de pesquisa e orientou teses sobre desigualdades educacionais e relação com o saber. Suas obras - entre elas “A relação com o saber” (1996), “Da relação com o saber às práticas educativas” (2000) e “Educação e Barbárie” (2022) - exerceram ampla influência sobre a pesquisa educacional no Brasil, inspirando programas de pós-graduação, políticas públicas e debates sobre a formação docente.

JT: A relação com o saber e o papel do professor na sociedade contemporânea

Professor Charlot, seus estudos têm contribuído de modo significativo para a formação de educadores e pesquisadores desde a década de 1980, especialmente a partir das formulações sobre a relação humana com o saber.

Considerando seu percurso investigativo e docente, como o senhor descreve hoje essa relação do ser humano com o saber? Que papel e que responsabilidade o senhor atribui aos professores nesse processo?

Bernard Charlot:

Continuo acompanhando pesquisas sobre a relação com o saber, inclusive orientando novos trabalhos e integrando uma rede internacional de pesquisadores sobre o tema, hoje presente em mais de dez países. Entretanto, nos últimos anos, minha reflexão tem se voltado ao que denomino Educação e Barbárie, perspectiva que retoma a questão da relação com o saber no contexto das transformações profundas da sociedade contemporânea e da posição do professor nesse cenário.

Podemos identificar três grandes mutações. A primeira ocorre na década de 1960, quando a sociedade redefine seus objetivos em função do desenvolvimento econômico. A educação passa a ser pensada prioritariamente como meio de inserção profissional, e não mais como processo de formação humana. Pais e professores passam a valorizar a escola em função do “bom emprego” que ela pode garantir, e não pela qualidade do ser humano que ajuda a formar. Isso produziu uma pressão crescente sobre os professores, agora submetidos às expectativas familiares e sociais voltadas ao sucesso econômico, ao mesmo tempo em que sofrem desvalorização material e simbólica.

A segunda transformação diz respeito à relação entre o desejo e a norma. Historicamente, as pedagogias – tanto as tradicionais quanto as renovadoras – se ocuparam da regulação do desejo pela norma. A pedagogia tradicional buscava disciplinar e controlar; a nova, liberar a espontaneidade. Contudo, hoje vivemos uma crise dessa regulação. Desde 1968, o desejo adquiriu uma legitimidade própria e as normas perderam autoridade. Já não há referência reconhecida que diga o que é legítimo desejar. As figuras da autoridade – o mestre, o bispo, o político local – foram substituídas por celebridades midiáticas e algoritmos que produzem desejos e padrões de comportamento. Assim, o professor, que representava a norma legítima, perdeu lugar simbólico.

A terceira transformação é tecnológica. O professor deixou de ser a principal fonte de informação. Nenhum docente pode competir com o volume e a velocidade de respostas oferecidos pelo Google ou pela inteligência artificial. O “professor de informação” está, portanto, historicamente superado. Mas o professor de saber – aquele que ajuda a compreender, organizar e dar sentido à informação – nunca foi tão necessário. O desafio atual é ser mediador de saber em um mundo saturado de dados.

Nesse contexto, o professor se torna um ponto de resistência. Vivemos tempos de barbárie, em que a ciência, a cultura e a escola são atacadas por forças autoritárias e negacionistas. Resistir é manter viva a crença no saber, na justiça e na educação como espaços de humanidade. O trabalho docente exige equilibrar tradição e inovação, resistir sem se fechar ao novo, acolher as tecnologias sem perder o sentido crítico. Ser professor, hoje, é mais difícil – e, paradoxalmente, mais importante do que nunca.


MS: Desafios da formação inicial de professores

Em sua opinião, quais são os principais desafios que a formação inicial de professores enfrenta na atualidade brasileira?


Bernard Charlot:

Há uma defasagem profunda entre a lógica que organiza a escola e os desafios do nosso tempo. A escola continua funcionando sob uma lógica de concorrência generalizada, que atravessa todas as etapas do sistema educacional. Certa vez, uma professora de educação infantil contou-me que uma menina de cinco anos ficou feliz porque “a prova tinha acabado” e, portanto, “já podia esquecer”. Essa pequena anedota revela muito: desde cedo, o estudante é treinado para competir e não para aprender.

Vivemos, portanto, o desafio da barbárie, acompanhado pelo desafio democrático. A educação é, por natureza, democrática: exige diálogo, troca e aceitação do saber científico. É justamente por isso que os inimigos da democracia atacam a escola. Além da barbárie e da democracia, há outros três desafios fundamentais.

O primeiro é o desafio ecológico, que inclui não apenas questões ambientais, mas também migrações, fome e limites civilizatórios. Precisamos desenvolver uma cultura do limite em sociedades moldadas pela lógica do desejo ilimitado.

O segundo é o desafio técnico: as novas formas de comunicação e de produção do conhecimento estão mudando radicalmente a cultura. O professor, especialista do saber, precisa enfrentar essa mutação, compreendendo-a e apropriando-se dela criticamente.

O terceiro é o desafio demográfico: vivemos um envelhecimento populacional sem precedentes. Pela primeira vez na história, em muitos países, os idosos vivem melhor do que os jovens. Isso altera as relações intergeracionais e as expectativas sociais em torno da educação.

Diante desses desafios, falta-nos uma pedagogia contemporânea. Ainda operamos entre discursos tradicionais e pedagógicos de mais de um século. Os professores improvisam, fazem “bricolagens” entre métodos e valores, mas sem uma referência estruturante. O resultado é um professor simultaneamente livre e abandonado: livre para escolher, mas sem referências sólidas para construir sentido. Formar professores, hoje, é ajudá-los a lidar com essa liberdade e com essa solidão.


MS: Educação como humanização e resistência

Professor Charlot, em suas obras recentes, o senhor enfatiza a educação como processo de humanização. Como essa concepção se traduz na formação de professores?


Bernard Charlot:

A educação é, antes de tudo, um processo de humanização, um ato de resistência à barbárie. A barbárie consiste em negar a humanidade do outro; a educação, ao contrário, afirma o humano como valor e horizonte. Por isso, ser professor é exercer uma função essencialmente política, embora não partidária: é formar seres humanos capazes de viver juntos e de reconhecer no outro alguém igual a si.

O professor deve dominar as tecnologias da informação, mas continuar sendo professor de saber. A informação circula livremente; o saber requer mediação, interpretação, crítica. Como dizia Gaston Bachelard, “todo conhecimento é resposta a uma pergunta” e “a verdade é o erro retificado”. O papel do professor é justamente suscitar perguntas, provocar o pensamento, ensinar que o erro faz parte do caminho do conhecimento.

Ensinar é transformar o mundo em objeto de estudo, nomeá-lo, organizá-lo em palavras e categorias. Esse processo é exigente, sobretudo para alunos de classes populares, que muitas vezes não veem a linguagem como forma de acesso ao saber. Também é atravessado por questões identitárias e de gênero: ainda persiste o imaginário de que certas áreas pertencem a determinados perfis – a mulher à poesia, o homem à física. O professor precisa combater esses estereótipos, ampliando o campo de possibilidades para cada estudante.

Costumo resumir a aprendizagem em uma fórmula simples:

Aprender = atividade intelectual + sentido + prazer.

Sem atividade intelectual, não há formação; sem sentido, o esforço se torna vazio; sem prazer, o aprendizado perde vitalidade. O desafio da formação docente é, portanto, construir profissionais capazes de compreender essa equação e de produzir, em sua prática, espaços de prazer intelectual, de sentido e de humanização.

JT: O papel das universidades na formação inicial de professors

Considerando que a formação inicial ocorre majoritariamente nas universidades, como o senhor avalia o papel dessas instituições na formação de professores diante das pressões do mercado e da globalização?

Bernard Charlot:

Durante quatorze anos trabalhei em uma escola normal, formando professores para o ensino primário e técnico. Sempre considerei esse trabalho mais formador do que aquele realizado nas universidades, porque estava ancorado na prática concreta e na reflexão pedagógica cotidiana. Quando as escolas normais desapareceram na França, passei à universidade e percebi que, embora ela ofereça um nível mais elevado de saber teórico, dá pouca atenção à profissionalidade docente.

A formação universitária ainda é excessivamente teórica e pouco preocupada com o “como fazer”. É preciso ensinar técnicas – não receitas – para lidar com situações reais de ensino, como alfabetizar, introduzir o conceito de zero ou avaliar o aprendizado. Muitos futuros professores chegam à escola sem domínio técnico e, por isso, se frustram. Para preservar seus ideais, precisam ser competentes.

Outro ponto crucial diz respeito à avaliação. Ela se tornou o centro da vida escolar e, muitas vezes, o principal fator de sofrimento. Devemos pensar novas formas avaliativas, coerentes com a educação que desejamos. Durante anos, utilizei um método simples: antecipava as dez perguntas da prova com um mês de antecedência. Assim, os alunos estudavam realmente, não por medo, mas por desejo de aprender. Avaliar não é punir; é criar condições para que todos possam ter sucesso.

Por fim, a formação docente deve promover coerência entre valores e práticas. Já encontrei professores de esquerda com práticas autoritárias, e conservadores com atitudes pedagógicas democráticas. O essencial é que o professor reflita sobre a coerência entre a escola que deseja e o mundo que ajuda a construir.


MS: Subjetividade, utopia e formação humana

Em meio às pressões produtivistas e ao apagamento das subjetividades nas instituições, o senhor vê possibilidades de uma educação humanizada renascer nesse contexto?


Bernard Charlot:

Não sou um guru, sou um pesquisador. Posso constatar que falta à juventude uma utopia mobilizadora, um sonho de humanidade que dê sentido à vida e ao estudo. No entanto, há sinais de resistência: jovens que abandonam carreiras lucrativas para viver de modo mais simples, que buscam reconexão com o essencial.

Devemos fazer o que vocês fazem com as publicações científicas publicadas pela Roteiro: pensar, debater, agir onde estamos. Passei a vida tentando mudar o mundo e, embora ele pareça ter piorado, continuo acreditando no poder do trabalho intelectual e coletivo. Como dizia o poeta René Char, “a lucidez é a ferida mais próxima do sol”. É preciso manter lucidez sem cair no desespero.

O professor é, por excelência, um trabalhador da contradição: vive entre ideais e realidades, entre esperanças e limites. Por isso, precisa de humor, de coragem e de solidariedade. A raiva diante da injustiça pode ser uma força vital, desde que se transforme em ação criadora. Continuo lutando, lendo Heidegger, escrevendo, ensinando, porque estar vivo é continuar aprendendo.

A educação, afinal, é uma aventura humana. Cabe a nós manter essa aventura viva.


Encerramento

A entrevista encerrou-se em tom afetuoso e reflexivo. Charlot agradeceu o diálogo e, com humor, desejou aos entrevistadores “boa sorte e boa coragem”, lembrando que, na França, se fala em coragem, e no Brasil, em sorte. Os entrevistadores Juares Thiesen, Maria Roseli G. B. de Sá e Marilda Pasqual Schneider expressaram profundo agradecimento pela disponibilidade e generosidade intelectual do Professor Bernard Charlot, reconhecendo sua contribuição inestimável à educação brasileira e latino-americana. Sua fala sintetiza o espírito desta conversa: lucidez crítica, esperança ativa e compromisso com a educação como ato de resistência e de humanidade.