https://doi.org/10.18593/r.v48.38628
Editorial
Prezado(a) leitor(a),
É com grande satisfação e entusiasmo que os editores da Revista Roteiro — periódico vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEd) da Universidade do Oeste de Santa Catarina apresentam o volume 48, referente ao ano de 2023, composto por 39 artigos e uma resenha. Os textos publicados foram aprovados após rigoroso processo avaliativo, pautado na avaliação por pares e com total anonimato. Procedimento que reafirma a qualidade editorial da revista e o protagonismo que a Roteiro tem assumido no campo educacional, consolidando-se como um relevante veículo de disseminação e democratização de resultados de pesquisas produzidas tanto em universidades brasileiras quanto estrangeiras.
Neste espírito democrático, exalado pela ciência, pela poesia e pela estética, a Roteiro, nesta edição, presta uma homenagem ao saudoso fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que por meio de suas lentes, capturou as contradições e expôs ao mundo as mazelas humanas. Seu estilo único, ao retratar a vida por meio de imagens em preto e branco, deixou o legado de uma obra estética genuína, tornando-se um repositório formativo sobre os caminhos que a humanidade deve percorrer em direção a um futuro sustentável. A escola da imagem de Sebastião Salgado remete à tentativa de condensar sua vasta obra na imagem do seu criador. A humanidade agradece pelo legado, e nós, da Roteiro, prestamos uma singela homenagem a alguém que elevou a sabedoria humana por meio de sua arte.
O objetivo desta edição é oferecer ao público um conjunto substantivo de artigos que abordam as múltiplas dinâmicas que envolvem o campo da educação. São temas, teorias, abordagens, perspectivas epistemológicas e metodológicas que aglutinam um conjunto plural de conhecimentos, investigações e indicações necessárias para o campo acadêmico e relevantes socialmente. Esse conjunto potente de textos, garante que leitores e pesquisadores tenham acesso aos resultados das recentes pesquisas desenvolvidas no âmbito educacional.
Neste contexto de compromisso com a ciência, cumpre destacar que, em um ambiente político marcado pela proliferação de discursos falaciosos e negacionistas quanto à importância da ciência, a Revista Roteiro, em consonância com os demais periódicos científicos, reafirma seu compromisso com a rigorosidade científica e com a relevância social da ciência como promotora de um desenvolvimento ético e justo. Assim, a Roteiro compõe um elo essencial de uma corrente colaborativa que se inicia com os pesquisadores e culmina no leitor, destinatário que pode apropriar-se desse conhecimento com vistas à melhoria das condições sociais.
O espírito da ciência aberta, solidária e plural constitui uma marca da Roteiro, que desempenha o papel de socializar com a comunidade acadêmica e científica os resultados de investigações realizadas no âmbito das instituições de ensino superior. Nesta edição, disponibiliza-se à comunidade um conjunto de textos que versam sobre diferentes níveis educacionais e suas respectivas interlocuções sociais.
O artigo inaugural, de autoria de Bruns e Rausch, propõe-se, por meio de uma pesquisa qualitativa e bibliográfica, a identificar saberes de professoras alfabetizadoras experientes que poderiam ser legados às professoras iniciantes, contribuindo, assim, para o desenvolvimento profissional dessas docentes. Os resultados evidenciaram que as lições perpassam a formação para alfabetizar; conhecimentos pedagógicos; conhecimentos específicos da alfabetização; atitudes docentes; e, laços afetivos. Essas lições possam contribuir para as professoras que estão começando na alfabetização, pois compreendemos a necessidade de uma formação docente construída dentro da profissão, o que implica no compartilhamento de saberes, numa dimensão que seja capaz de romper com a individualidade da docência
O segundo artigo, intitulado “A pedagogia da alternância frente às teorias do currículo: tradicional, crítica ou pós-crítica?”, busca situar a pedagogia da alternância em relação às principais teorias do currículo. Para Valadão, autor do artigo, a Pedagogia da Alternância, tem o tempo-espaço escolar e o tempo-espaço familiar como orgânicos, indissociáveis, objetivando promover a formação integral das pessoas do campo, valorizando as práticas sociais que as constituem.
O terceiro texto, de Fialho, Silva e Machado, investiga o surgimento da Campanha de Educação Popular na cidade de Campina Grande, Paraíba, entre os anos de 1961 e 1964. Os autores concluem que a Campanha, que utilizava o “Método Paulo Freire” e tinha como objetivo alfabetizar jovens e adultos em 40 horas, buscava despertar nesses sujeitos o senso crítico diante das desigualdades sociais. Entretanto, com o advento do golpe civil-militar de 1964, a Campanha foi extinta, deixando, contudo, um importante legado educacional na Paraíba.
O quarto artigo, de Kepler e Arnaldo Nogaro, discute o agravamento das questões relacionadas à finitude e à angústia existencial entre estudantes do ensino médio, intensificadas pela pandemia de Covid-19, com base em depoimentos de professoras. A investigação revelou que a pandemia expôs fragilidades e a vulnerabilidade humana e profissional no enfrentamento dessas questões existenciais. Os autores concluem que, nem sempre o educador a possui, o que revela lacunas no seu processo formativo. Em um cenário normal, já há barreiras a transpor, e com a Covid-19, muito mais caótico ficou o espaço escolar e a vida dos adolescentes. A pandemia demonstrou nossas fragilidades e expôs nossa vulnerabilidade humana e profissional para dar conta das questões existenciais e da finitude. Também revelou aspectos de nossa impotência para ouvir e auxiliar os adolescentes em suas crises existenciais e sofrimento psíquico.
O quinto e sexto artigo investigam o campo do trabalho docente. O texto “Qual a origem do saber do auxiliar de classe? Estudo sobre o não lugar profissional”, de Jesus e Ferreira, aborda as origens dos saberes mobilizados pelos auxiliares de classe e como esses saberes influenciam a construção de um “não lugar” profissional. Complementarmente, o artigo “Aprendizagens profissionais de professores iniciantes e experientes em um programa de mentoria”, de Reali, Anunciato e Marini, analisa as aprendizagens de docentes, tanto iniciantes quanto experientes, no contexto de um Programa Híbrido de Mentoria, voltado para apoiar professores com menos de cinco anos de atuação frente às dificuldades típicas do início da carreira.
No campo das tecnologias educacionais, os artigos “Formação crítica e participação em sociedade: relações entre educação e Química e tecnologias digitais” e “A utilização do software Iramuteq na análise de dados textuais em revisão sistemática de literatura” apresentam pressupostos e evidências que destacam as tecnologias como ferramentas pedagógicas imprescindíveis, tanto para a prática docente quanto como instrumentos de pesquisa no campo educacional.
Na temática da educação superior, a edição traz textos que aprofundam dimensões complexas. O artigo “Ensino superior privado brasileiro na pandemia: do ERE ao processo híbrido de ensino e aprendizagem”, de Costa e Cecílio, discute os dilemas e contradições do ensino híbrido nas instituições privadas de ensino superior, à luz da Lei 14.040/2020. De modo convergente, os textos “Política afirmativa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul: as ações de permanência estudantil na concepção das gestoras e dos gestores” e “Políticas públicas de acesso e assistência na educação superior: uma pesquisa do estado do conhecimento” analisa, respectivamente, as dimensões das ações afirmativas e os desafios associados às políticas de acesso e permanência no ensino superior.
Diversos estudos desta edição abordam o trabalho docente, a formação e as práticas pedagógicas. O artigo “Docência no século XXI: aspectos pessoais e sociais na construção do bem-estar docente”, de Boicko, Poli e Marques, investiga o bem-estar docente com base em pesquisa de campo realizada com professoras com mais de 20 anos de atuação na educação fundamental. Já o texto de Devechi e Dalbosco, intitulado “Formação de professores: uma crítica pelo olhar das capacidades humanas”, propõe uma reflexão filosófica sobre a formação docente, ancorada na teoria das capacidades humanas de Martha Nussbaum.
No campo da identidade docente, o artigo “A plenitude de capinar e tanger a boiada na roça: deixar-se ser-docente em escolas da roça” explora como professores que atuam em escolas rurais constroem sua identidade docente a partir da ruralidade e das experiências vividas no campo. Por sua vez, o estudo “Estudos sobre a história da prática docente em educação física: o estado da questão”, de Lima e Nóbrega-Therrien, evidencia lacunas nas investigações sobre a prática docente na disciplina de Educação Física.
Ainda nesta temática, destacam-se os estudos de Rocha e Curado-Silva, que analisam as percepções de professores iniciantes acerca do sentido político da escola, bem como os resultados da pesquisa intitulada “Formação continuada docente como lugar de experiências: comunidade de aprendizagem e as lições da pandemia da Covid-19”, que evidencia a formação continuada como espaço de experiências transformadoras no entrelaçamento entre universidade e escola. O artigo de Costa e Amorim, por sua vez, discute a formação continuada em serviço a partir de dados coletados com docentes.
No âmbito da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), esta edição reúne textos que discutem as políticas educacionais e as práticas pedagógicas. O artigo “As dicotomias no contexto e no texto da BNCC como projeto educacional”, de Santos, Tomé e Lima, analisa a incorporação de elementos antagônicos na BNCC, indicando sua filiação a um projeto societário que reforça a lógica privatista e mercantil na escola básica brasileira. Contribuindo para a análise da BNCC, o texto “Relações entre a ocupação de escolas, a reforma do ensino médio e a BNCC”, de Flach e Schlesener, discute a relação entre as ocupações secundaristas ocorridas em 2016 e a Reforma do Ensino Médio, a partir das lentes teóricas de Gramsci.
O artigo de Gusmão, “Análise do ensino médio brasileiro com base em indicadores educacionais”, apresenta uma análise minuciosa das condições educacionais a partir de indicadores como os resultados do SAEB, taxas de aprovação, reprovação, abandono, repetência, defasagem idade-série, entre outros, apontando que o baixo desempenho escolar decorre, direta ou indiretamente, das desigualdades econômicas, sociais e educacionais que afetam especialmente os estudantes das escolas públicas.
Dois textos abordam a teoria freiriana como base para a investigação educacional: o primeiro, “Radicalização e sectarização: retomando os pressupostos freirianos”, de Freitas e Araújo Freitas, discute, a partir de pesquisa bibliográfica, a dicotomia entre forças progressistas e reacionárias. O segundo texto, lança um diálogo entre Paulo Freire e Matthew Lipman sobre a educação domiciliar (homeschooling) no Brasil. Os autores, Dju, Magoga e Muraro partem da seguinte questão: que educação pressupõe a homeschooling diante das contribuições de Freire e Lipman? Em resposta a instigante questão, a pesquisa aponta que a perspectiva educativa presente na educação domiciliar é antagônica aos pressupostos sociais e educacionais levantados por Paulo Freire e Lipman. Enquanto as teorias de Freire e Lipman defendem uma educação libertadora e emancipatória, a educação domiciliar se fundamenta em modelos conservadores, autoritários e arbitrários, que prejudicam o ensino público, a justiça social, o desenvolvimento integral da pessoa e a democracia.
Outro grupo de artigos trata das relações entre formação, democracia e neoliberalismo. Destaca-se a investigação “Valores, função social e ethos democrático: paradoxos e possibilidades da escola no atual cenário neoliberal”, de Sobrinho, Cenci e Bukowski, que propõe uma reflexão crítica sobre a influência da lógica neoliberal na educação brasileira, dialogando com Christian Laval. Na mesma linha, o artigo “Recomendações dos organismos internacionais para a América Latina: inclusão escolar, sustentabilidade e desigualdade estrutural” analisa, a partir do método histórico-dialético, como tais organismos influenciam as agendas educacionais, principalmente após os anos 2000. Os resultados apontam que a partir dos anos 2000 esses organismos orientam os governos a se atentarem à inclusão e à preservação/educação ambiental, entendendo que, pelo percentual de pessoas que abarca, o grupo da Educação Especial não pode ser ignorado, sobretudo num momento de notório crescimento da desigualdade econômico-social na América Latina.
No campo das dinâmicas de gênero, o artigo “Violência e desigualdade de gênero: prevenção desde a educação inicial chilena”, de Moreno, Araya e Diaz, apresenta um estudo com educadores da primeira infância no Chile, destacando ações voltadas à prevenção da violência e da desigualdade de gênero. Os resultados indicam que os educadores estão atentos ao tema, têm implementado ferramentas sociais e pedagógicas que contribuem para a prevenção do fenômeno. Por fim, este trabalho permite formular propostas de apoio e orientação para potencializar a prevenção da violência e da desigualdade de gênero nesses contextos escolares.
Em outro estudo, Juarez José Tuchinski dos Anjos, no artigo “O Diário Oficial do Distrito Federal como fonte para a história da educação (1967-1971)”, investiga o potencial desse documento como fonte histórica, organizando um banco de dados relevante para a compreensão da educação no Distrito Federal. A pesquisa identificou no periódico dez temas ligados ao mundo da escola e da escolarização: práticas escolares do ensino primário; ensino médio; profissão docente; ensino normal; gestão do ensino; construção de escolas; circulação de modelos pedagógicos; educação especial; cultura material escolar e jardins de infância, que, em seu conjunto, apresentam múltiplas possibilidades para a escrita da história da educação no Distrito Federal.
O texto “Alfabetização Matemática na Perspectiva do Letramento: Análise sobre a Produção Brasileira centrada nos Anos Iniciais”, de Stein, Melo e Richit, identifica três tipos de letramento predominantes: ideológico, escolarizado e múltiplos, a partir de uma revisão bibliográfica na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações.
Quanto à identidade docente, o artigo “Educação histórica, ensino de história e formação docente: possíveis inter-relações na construção identitária do sujeito”, de Rosanelli, Cunha e Pasianto, destaca como o Ensino de História contribui para a formação da identidade docente, ao articular passado, presente, conhecimento e vivência. As análises das fontes permitem compreender que a formação do sujeito-docente ocorre de modo interligado entre o passado, a realidade, a significação do conhecimento, a vida prática, o “eu” e o “outro” e a significação de vivências e experiências. Embora tal formação não seja uma tarefa simples, é importante para permitir a qualificação da Educação como um todo e a construção de uma História repleta de diversidade, respeito e protagonismo.
Na temática da educação do campo, o artigo “Trajetórias, Memórias e Narrativas em pesquisas na área de Educação do Campo”, de Luiz e Guimarães, analisam as experiências e memórias de pesquisadores que optam pela educação do campo como espaço político-existencial. Com a investigação, evidenciaram-se processos existenciais que implicam uma relação singular entre as trajetórias desses sujeitos e sua opção político-existencial pela educação do campo enquanto lócus de pesquisa e de trabalho, constituindo-se, portanto, como um retorno à própria terra, à sua história e sua existência em seu sentido mais amplo, num movimento que envolve fazeres, saberes, afetos e ideais construídos no processo de luta e trabalho.
O estudo de Ciríaco e Antunes, “Interações com Famílias via WhatsApp e as Práticas de Numeramento/Letramento Matemático Evidenciadas no Ensino Remoto”, investiga como famílias usaram o aplicativo durante a pandemia, ressaltando a necessidade de considerar os contextos culturais familiares na aprendizagem matemática. O estudo aponta para a imperativo de reconhecer as necessidades de compreensão dos contextos culturais familiares de aprendizagem matemática das crianças, no sentido de partir da realidade delas para a produção de sentidos e significados matemáticos nas práticas de letramento escolar.
Já o texto, “A gestão democrática na prática de Conselho Estadual de Educação do Estado do Espírito Santo” de autoria de Oliveira e Silva, analisa a atuação do Conselho Estadual de Educação do Espírito Santo (CEE/ES) na promoção da gestão democrática na educação básica, a partir do ano de 2014, início da vigência do Plano Nacional de Educação (PNE - 2014 a 2024). Para os autores, o Conselho prevê a gestão democrática em seus atos normativos, porém com aderência a concepções que não enfrentam a centralização do poder de decisões afetas à gestão da educação.
Por fim, a edição finaliza com a apresentação da resenha crítica do livro, Educação Bilíngue no Brasil: reflexões a partir da práxis, escrita por Miranda, Zibetti e Feitosa que apresentam os resultados de uma pesquisa conduzida por Antonieta Megale. Na obra, a autora se guia pelo senso questionador de como fazer uma Educação Bilíngue no Brasil, considerando as dimensões da realidade escolar, sobretudo, a partir do contexto de pandemia do covid-19.
Este volume, portanto, se apresenta como uma obra consistente, reunindo uma ampla diversidade de publicações que abordam diferentes temas, capazes de atender leitores e pesquisadores com interesses variados. Convidamos leitores, autores e demais interessados para visitar a nosso periódico e explorar este volume, assim como os demais que integram as publicações anuais da Roteiro.
Desejamos a todos uma excelente leitura!