https://doi.org/10.18593/r.v49.37120

Apresentação Seção Temática: Ética, Integridade e Pesquisa em Educação

A temática da ética e da integridade em pesquisas e das boas práticas acadêmico-científicas têm disso bastante discutidas em muitos países, em todas as áreas de conhecimento. Na área de Educação, em particular, no Brasil, desde 2015, a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd) tem investido na produção de subsídios, participação das discussões nacionais sobre ética em pesquisa e na realização de seminários, palestras e outras atividades formativas.

A literatura internacional tem indicado a importância de aproximar as noções de ética em pesquisa e integridade (integridade em pesquisa, integridade acadêmica, integridade científica). Desse modo, a proposta desta Seção Temática foi a de receber produções que se referissem às questões de ética em pesquisa e integridade.

Esta Seção Temática conta com 14 artigos e uma entrevista. O primeiro artigo, de autoria de Caroline Ferreira do Amaral e Sônia Aparecida Siquelli aborda a ética na pesquisa com crianças. As autoras analisaram 28 artigos, publicados em periódicos da área de Educação no período de 2014-2023. O segundo artigo, intitulado “Deficiência, interseccionalidade e suas inflexões teóricas: outras perspectivas para a pesquisa educacional e desafios à educação inclusiva outras perspectivas para a pesquisa educacional e desafios à educação inclusiva”, de Pedro Angelo Pagni analisa os limites e discute as possibilidades de a ferramenta analítica da interseccionalidade e de teorias queer e CRIP minimizarem os efeitos  éticos da “indignidade de falar pelo outro”, presentes tanto em parte das pesquisas sobre a deficiência quanto na elaboração das políticas públicas e na efetuação da educação inclusiva.

O artigo Ética não-humana e o habitar do ensinar e do aprender no paradigma da educação OnLIFE, de Eliane Schlemmer e Massimo Di Felice, objetivo compreender como as transformações globais recentes desafiam o paradigma antropocêntrico predominante e provocam uma redefinição do paradigma educacional e da ética que fundamenta a educação e a pesquisa em educação, com foco na interdependência entre humanos, natureza e tecnologia. O artigo de Ivan Fortunato e Juanjo Mena, intitulado “A ética na pesquisa em Educação: aportes preliminares para análise de conteúdo” tem por objetivo compreender os diferentes significados de “ética” na pesquisa educacional, analisando a literatura recente (desde 2020) e utilizando a técnica de análise de conteúdo de Laurence Bardin. Dividido em três seções, o estudo aborda a definição clássica de ética, codifica e categoriza as definições encontradas em artigos selecionados, e analisa esses conteúdos.

O quinto artigo, “Pesquisa em educação e bioética: integrando valores éticos e conhecimento científico”, de Diego Carlos Zanella, Anor Sganzerla, Anderson Luiz Tedesco, investiga as contribuições da bioética para as pesquisas em educação, com ênfase na formação de indivíduos capazes de refletir eticamente sobre questões científicas em suas práticas educacionais. Partindo da premissa de que a formação científica tradicional, focada predominantemente em aspectos técnicos, é insuficiente para enfrentar os desafios éticos contemporâneos, os autores propõem uma integração entre valores éticos e conhecimentos científicos no processo educativo. O sexto artigo “A ética na formação de pesquisadores/as na Pós-Graduação em Educação: uma revisão sistemática”, de Jefferson Mainardes, apresenta uma revisão sistemática de 18 trabalhos, em Língua Portuguesa, sobre a formação ética na Pós-Graduação em Educação. A partir da análise dos textos incluídos na revisão, O autor argumenta em favor: da incorporação das questões relacionadas à integridade acadêmica e científica nas discussões de ética; da criação do Fórum de docentes e pesquisadores/as de ética e integridade em Ciências Humanas e Sociais (CHS); da oferta de uma disciplina interinstitucional; e do desenvolvimento de um projeto de formação orgânico e articulado, que envolva diferentes instâncias (órgãos governamentais, agências de fomento, Programas de Pós-Graduação em Educação, Grupos de Pesquisa, associações acadêmico-científicas). 

O artigo de Amurabi Oliveira, “Entrada em campo, Etnografia e Educação: desafios éticos e metodológicos”, traz o debate sobre ética na pesquisa etnográfica em educação no processo de trabalho de campo, compreendendo que as questões éticas devem nortear toda a reflexão da pesquisa, mas que se tornam ainda mais agudas em campo, nas pesquisas etnográficas. Elison Antonio Paim e Caroline Machado Campos assinam o artigo “Modos outros de pesquisar em educação: tecendo narrativas com os fios da decolonialidade”, que apresenta um levantamento das pesquisas realizadas no grupo Grupo Patrimônio, Memória e Educação (PAMEDUC), com ênfase em trabalhos que adotam uma perspectiva decolonial, inspirada em autores como Linda Tuhiwai Smith, Walter Benjamin e Aníbal Quijano.

Lia Machado Fiuza Fialho, Karla Angélica Silva do Nascimento e Vanusa Nascimento Sabino Neves, apresentam o artigo “Integridade e ética na pesquisa educacional: uma revisão integrativa (2019-2023). Trata-se de uma pesquisa de tipo revisão integrativa, com o objetivo de analisar a produção científica atual (2019-2023) a respeito da ética e da integridade na pesquisa educacional. As autoras analisaram 192 artigos. A análise categórica do dendrograma da Classificação Hierárquica Descente, da nuvem de palavras e do gráfico de similitude permitiram inferir a necessidade de tratar a ética e a integridade com abordagem holística e formativa para fomentar uma cultura de boas práticas científicas, com vistas a minorar más condutas e majorar a adoção de boas práticas no comportamento científico para o avanço do conhecimento e o benefício à sociedade.

O décimo artigo, “Narrar a si como doação: experiência, ética e integridade na pesquisa autobiográfica em educação”, de Alexssandro Schappo e Bruno Antonio Picoli, explora a relação da autobiografia com as noções de experiência e escrevivência, a partir de Evaristo e Larrosa e reflete sobre o propriamente ético na pesquisa autobiográfica com o suporte em Levinas e Souza. O artigo de Jelson Roberto de Oliveira, intitulado “Responsabilidade ambiental nas pesquisas em educação: a difícil conjugação de saber, poder, fazer e dever” analisa, a partir do pensamento do filósofo alemão Hans Jonas, como a responsabilidade ambiental se apresenta como um desafio para as pesquisas e as práticas em educação no mundo contemporâneo. O autor propõe que, cabe à educação uma tarefa cósmica: educar para o sentimento de pertença à humanidade, resgatando valores como a frugalidade e ensinando a fidelidade à Terra.

Sidinei Pithan da Silva, Vânia Lisa Fischer Cossetin e Fernando Jaime González escreveram o artigo “Ética e integridade na pesquisa em educação na perspectiva da complexidade”. Para os autores, toda a forma de pesquisa em educação, para se haver com o tema da ética e da integridade, precisa lutar contra as cegueiras, a fragmentação e a simplificação do conhecimento, que colaboram para a tecnificação e objetificação do mundo. O artigo “Ética e pesquisa com pessoas com deficiência: do domínio por tutela à contraconduta”, de Tania Mara Zancanaro Pieczkowski e Patrícia Gräff, tensiona a pesquisa com pessoas com deficiência, a partir do conceito de domínio por tutela, tomando a contraconduta como possibilidade de enfrentamento aos procedimentos de condução das condutas dos outros, inscritos, historicamente, na esteira das práticas de exclusão. Toma um conjunto de estudos que envolvem a ética na pesquisa com pessoas com deficiência, aliado a três pesquisas de Mestrado em Educação, produzidas por pessoas com deficiência, como superfície analítica, a partir do campo dos Estudos Foucaultianos.

O último artigo, “Los valores en la práctica docente universitaria. Revisión sistematizada”, de autoria de Maritza Minelli Briceño Caballero e Rubén Comas Forgas, revisou 32 artigos das bases de dados SCOPUS, ERIC e Dialnet sobre valeres na prática docente universitária. Com base nos resultados, os autores destacam a importância dos valores na prática docente, sendo os valores mais citados a responsabilidade, o respeito e o comprometimento.

A Seção Temática inclui ainda uma entrevista com a Professora Eva María Espiñeira Bellón sobre ética, integridade acadêmica e Inteligência Artificial, realizada por Jefferson Mainardes e Anderson Luiz Tedesco.

Agradecemos as contribuições dos autores, bem como dos avaliadores. Esperamos que os artigos e a entrevista contribuam para as discussões sobre ética e integridade.

Prof. Dr. Anderson Luiz Tedesco – UNOESC

Prof. Dr. Jefferson Mainardes – UEPG

Profª Dra. Ângela Maria Scalabrin Coutinho - UFPR

Prof. Dr. Rubén Comas-Forgas – University of the Balearic Islands (Espanha)