https://doi.org/10.18593/r.v49.34784

Modos outros de pesquisar em educação: tecendo narrativas com os fios da decolonialidade

Other ways of researching in education: Weaving narratives with the threads of decoloniality

Otras formas de investigar en educación: Tejiendo narrativas con los hilos de la decolonialidad

Elison Antonio Paim1

Universidade Federal de Santa Catarina; Professor Associado de Metodologia de Ensino. https://orcid.org/0000-0002-7509-5572

Caroline Machado Costa2

Universidade Federal de Santa Catarina; Pedagoga e técnica ambiental na MPB Engenharia. http://lattes.cnpq.br/4410869002755117

Resumo: O Grupo Patrimônio, Memória e Educação (PAMEDUC), vinculado à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), dedica-se à promoção de uma metodologia decolonial que valoriza as narrativas e saberes de comunidades historicamente marginalizadas, especialmente indígenas e afrodescendentes. O grupo, fundado em 2014, tem como principal objetivo construir experiências coletivas de investigação, articuladas com práticas de ensino e extensão, fomentando uma abordagem crítica sobre patrimônios e memórias. Este artigo apresenta um levantamento das pesquisas realizadas no grupo, com ênfase em trabalhos que adotam uma perspectiva decolonial, inspirada em autores como Linda Tuhiwai Smith, Walter Benjamin e Aníbal Quijano. Essas pesquisas procuram romper com as estruturas de conhecimento ocidentais, destacando a importância da autonomia e autodeterminação dos grupos pesquisados e reconhecendo suas histórias como saberes legítimos. A metodologia decolonial adotada pelo grupo PAMEDUC enfatiza o diálogo horizontal, respeitando as particularidades de cada grupo e/ou sujeito e rejeitando a hierarquização do saber ocidental como único válido. O artigo também ressalta a importância de uma metodologia em constante construção, que se adapta às necessidades e contextos dos grupos estudados, e como as pesquisas desenvolvidas têm contribuído para a inclusão e transformação social, especialmente por meio da valorização de vozes marginalizadas e subalternizadas.

Palavras-Chave: pesquisa; pameduc; memórias; experiências; metodologia decolonial.

Abstract: The Patrimony, Memory, and Education Group (PAMEDUC), affiliated with the Federal University of Santa Catarina (UFSC), is dedicated to promoting a decolonial methodology that values the narratives and knowledge of historically marginalized communities, such as Indigenous and Afro-descendant groups. Founded in 2014, the group’s primary objective is to create collective research experiences, integrated with teaching and extension practices, fostering a critical approach to heritage and memory. This article presents a survey of the research conducted by the group, emphasizing works that adopt a decolonial perspective inspired by authors such as Linda Tuhiwai Smith, Walter Benjamin, and Aníbal Quijano. These studies challenge Western knowledge structures, highlighting the importance of the autonomy and self-determination of the studied groups, recognizing their stories as legitimate forms of knowledge. PAMEDUC’s decolonial methodology emphasizes horizontal dialogue, respecting the specificities of each group and rejecting the hierarchy of Western knowledge. The article also underscores the importance of a methodology in continuous construction, adapting to the needs and contexts of the studied communities, and how the research conducted by group has contributed to social inclusion and transformation, especially through the recovery and recognition of marginalized voices.

Keywords: research; pameduc; memories; experiences; decolonial methodology.

Resumen: El Grupo Patrimonio, Memoria y Educación (PAMEDUC), afiliado a la Universidad Federal de Santa Catarina (UFSC), está dedicado a promover una metodología decolonial que valora las narrativas y los conocimientos de comunidades históricamente marginadas, como los grupos indígenas y afrodescendientes. Fundado en 2014, el objetivo principal del grupo es crear experiencias colectivas de investigación, integradas con prácticas de enseñanza y extensión, fomentando un enfoque crítico sobre el patrimonio y la memoria. Este artículo presenta un levantamiento de las investigaciones realizadas por el grupo, destacando los trabajos que adoptan una perspectiva decolonial inspirada en autores como Linda Tuhiwai Smith, Walter Benjamin y Aníbal Quijano. Estos estudios cuestionan las estructuras de conocimiento occidentales, subrayando la importancia de la autonomía y autodeterminación de los grupos estudiados, reconociendo sus historias como formas legítimas de conocimiento. La metodología decolonial de PAMEDUC enfatiza el diálogo horizontal, respetando las especificidades de cada grupo y rechazando la jerarquización del conocimiento occidental. El artículo también destaca la importancia de una metodología en construcción continua, adaptada a las necesidades y contextos de las comunidades estudiadas, y cómo las investigaciones realizadas por PAMEDUC han contribuido a la inclusión social y a la transformación, especialmente a través de la recuperación y el reconocimiento de voces marginadas.

Palabras clave: investigación; pameduc; recuerdos; experiencias; metodología decolonial.

Recebido em 13 de maio de 2024

Aceito em 03 de outubro de 2024

1 INTRODUÇÃO

Entendo bem o sotaque das águas.

Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios (Manoel de Barros, Memórias inventadas – A infância, 2003)

O Grupo Patrimônio, Memória e Educação (PAMEDUC), vinculado ao Departamento de Metodologia de Ensino da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tem como principal objetivo congregar pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento para construir experiências coletivas de investigação. Essas investigações são articuladas com práticas de ensino e extensão, contribuindo para a reflexão e problematização do campo do patrimônio e dos estudos acerca da memória na interface com a educação.

O grupo, fundado em 2014, é uma referência na UFSC, especialmente em trabalhos que adotam a perspectiva decolonial. Participam estudantes de graduação, especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado, além de promover a organização de publicações, eventos e cursos. O PAMEDUC também fomenta projetos de educação patrimonial, buscando salvaguardar e valorizar o patrimônio cultural em conexão com a história local e as políticas de preservação.

As linhas de pesquisa do grupo incluem “Patrimônio cultural, história local e educação”, “Educação e decolonialidade”, “Memória e História da Educação” e “Patrimonialização e políticas de salvaguarda”. Com uma equipe diversificada de doutores, pós-doutorandos, doutorandos, mestrandos acadêmicos e profissionais e estudantes de graduação, o grupo tem sido liderado por Elison Antonio Paim e Claricia Otto. Essas iniciativas são fundamentais para promover uma abordagem crítica e interdisciplinar, que valorize as memórias e patrimônios em uma perspectiva decolonial.

As pesquisas aqui apresentadas fazem parte de um levantamento dos trabalhos desenvolvidos no PAMEDUC que têm como foco a construção de uma metodologia decolonial, uma abordagem que ainda está em desenvolvimento. A metodologia decolonial busca, em essência, romper com as estruturas de conhecimento ocidentais e coloniais, valorizando epistemologias e narrativas de grupos historicamente marginalizados, como povos indígenas, afrodescendentes e outros sujeitos silenciados pelas narrativas dominantes. Esta construção metodológica é inspirada por autores do pensamento decolonial e se alicerça em uma perspectiva crítica, engajada na desconstrução de paradigmas tradicionais.

O grupo de pesquisa PAMEDUC, assim como as “memórias inventadas” de Manoel de Barros, valoriza as histórias e memórias dos sujeitos como formas legítimas de conhecimento, rompendo com a linearidade e rigidez da história oficial. O grupo busca as narrativas que, assim como as de Barros, muitas vezes, foram relegadas ao esquecimento ou consideradas irrelevantes por uma perspectiva eurocêntrica e colonial de conhecimento.

Uma das grandes referências desse tipo de abordagem metodológica é a obra Descolonizando Metodologias: Pesquisa e Povos Indígenas de Linda Tuhiwai Smith. Smith (2018), uma intelectual indígena maori, destaca elementos centrais para uma metodologia decolonial, que foram adotados e adaptados nas pesquisas do PAMEDUC. Entre os principais itens trazidos por Smith estão: a) Valorização história e memória: A pesquisa decolonial busca as histórias e memórias dos povos marginalizados, enfatizando que essas narrativas sejam contadas por eles mesmos, rompendo com a visão exógena que as representa de fora; b) Reconhecimento das epistemologias indígenas: Valorização dos saberes e formas de conhecimento próprios dos povos indígenas e de outros grupos marginalizados, recusando a hierarquização das epistemologias ocidentais como superiores; c) Autonomia e autodeterminação: As pesquisas decoloniais devem respeitar a autonomia dos povos estudados, permitindo que eles sejam protagonistas do processo de pesquisa e que suas vozes sejam ouvidas e respeitadas; d) Desafiar a colonialidade do poder e do saber: O processo decolonial de pesquisa está comprometido com o desafio das relações de poder que determinam quais saberes são validados ou marginalizados, e busca romper com essas estruturas através de uma prática reflexiva e crítica; e) Pesquisa como um processo colaborativo e relacional: Em vez de impor abordagens externas, a pesquisa decolonial privilegia o diálogo e a colaboração com os grupos pesquisados, de forma que o processo seja mutuamente benéfico.

Nesse sentido, o presente escrito tem como objetivo apresentar um levantamento dos trabalhos do PAMEDUC que seguem essa linha de investigação, destacando como essas pesquisas têm integrado esses princípios e contribuído para a construção de uma metodologia decolonial que esteja em consonância com a realidade local e com as demandas dos grupos estudados.

2 METODOLOGIAS DE PESQUISA DECOLONIAL

As metodologias de pesquisa decoloniais, como as que vêm sendo desenvolvidas pelo PAMEDUC, destacam a importância de um compromisso ético e epistemológico com os grupos pesquisados. Uma característica fundamental dessas metodologias é o uso de termos e conceitos oriundos dos próprios sujeitos da pesquisa, valorizando seus conhecimentos e saberes produzidos ao longo de sua história. Essa postura respeitosa implica dialogar com os grupos em horizontalidade, evitando qualquer tipo de hierarquia epistemológica que coloque o conhecimento científico ocidental como superior ou com maior validade.

Nas pesquisas decoloniais, é essencial que as narrativas e histórias dos grupos marginalizados sejam reconhecidas como uma das muitas histórias que ainda não foram contadas ou legitimadas dentro do espaço acadêmico ou social. Ao invés de questionar ou submeter essas narrativas à análises que poderiam distorcer seu valor, a abordagem decolonial visa reconhecê-las em sua própria autenticidade. Isso significa que o foco da pesquisa não está em interpretar ou validar essas histórias sob os parâmetros científicos tradicionais, mas em acolhê-las como saberes legítimos, permitindo que seus protagonistas sejam agentes ativos na construção de suas próprias histórias.

Além disso, essa metodologia implica a construção de um diálogo horizontal entre pesquisadores e comunidades, rompendo com a lógica da colonialidade que historicamente impôs o conhecimento ocidental como dominante. O objetivo é garantir que as vozes dos sujeitos pesquisados sejam ouvidas e valorizadas em pé de igualdade, sem subordinação aos discursos científicos hegemônicos. Assim, o conhecimento é construído coletivamente, e o processo de pesquisa torna-se um espaço de escuta ativa, diálogo e respeito mútuo.

A metodologia de pesquisa decolonial está em constante construção e não segue uma fórmula ou receita fixa. Ela procura ser moldada de acordo com o contexto e as especificidades de cada grupo ou comunidade. O pesquisador precisa estar atento às necessidades e às particularidades das pessoas que deseja pesquisar, assumindo uma postura de sensibilidade e respeito. Isso implica em reconhecer que as metodologias tradicionais, muitas vezes, não conseguem explicar as complexidades das realidades vividas por esses grupos. Portanto, a pesquisa decolonial requer flexibilidade e compromisso ético com a valorização das narrativas, saberes e histórias daqueles que historicamente foram marginalizados.

Outro aspecto essencial dessa abordagem é que as histórias e memórias dos grupos pesquisados não são vistas apenas como objetos de análise, mas como narrativas legítimas que trazem à tona perspectivas sobre as realidades vividas por esses povos. A pesquisa decolonial, nesse sentido, trabalha para restituir a essas narrativas o espaço que historicamente lhes foi negado, proporcionando uma abertura para que novos saberes possam emergir no cenário acadêmico e social.

As metodologias de pesquisa decoloniais também consideram as diversas formas de colonialidade que ainda afetam as sociedades contemporâneas, mesmo após a independência política das colônias. Como argumentam autores como Aníbal Quijano (1992; 2005), Walter Mignolo (2017; 2005), Enrique Dussel (2012) e Nelson Maldonado-Torres (2007a; 2007b), a “colonialidade do poder” se refere às hierarquias de poder que permaneceram após a colonização. Outras formas de colonialidade também devem ser consideradas:

a) Colonialidade do Poder: Relacionada à estrutura global de poder que persiste desde o período colonial iniciado no século XVI e afeta a organização das sociedades contemporâneas. Autores como Anibal Quijano, Walter Mignolo e Enrique Dussel abordam como o controle do trabalho, dos recursos e da economia global está enraizado na colonialidade.

b) Colonialidade do Saber: Trabalhos de Ramón Grosfoguel (2008) e Linda Tuhiwai Smith (2018) destacam como o conhecimento produzido e validado no mundo acadêmico ocidental, muitas vezes, marginaliza ou ignora os saberes indígenas, afrodescendentes e outras formas de conhecimento não ocidentais.

c) Colonialidade do Ser: Frantz Fanon (1979) e Nelson Maldonado-Torres (2005; 2008) problematizam como a colonialidade afeta a subjetividade e a identidade dos povos colonizados, perpetuando a desumanização e os estigmas que ainda influenciam as relações sociais.

d) Colonialidade de Gênero: Segundo Maria Lugones (2014) e Gloria Anzaldúa (2021), a colonialidade também se manifesta na imposição de normas de gênero coloniais, que reprimem formas de organização social e de gênero não ocidentais.

e) Colonialidade do Meio Ambiente: Arturo Escobar (2005), Ramón Grosfoguel (2010) e Malcom Ferdinand (2022) argumentam que a exploração da natureza e dos recursos naturais sob a lógica colonial continua a impactar profundamente as comunidades locais, particularmente as populações indígenas e tradicionais.

Portanto, ao valorizar os saberes e as epistemologias dos grupos pesquisados, a metodologia decolonial desafia as múltiplas colonialidades, promovendo uma prática de pesquisa que é radicalmente inclusiva e que reconhece a pluralidade de vozes e experiências que compõem as histórias humanas.

3 PESQUISA DESENVOLVIDAS PELO PAMEUC

Antes de apresentar as pesquisas decoloniais desenvolvidas pelo PAMEDUC, é importante destacar o que elas têm em comum metodologicamente. As pesquisas do grupo buscam “escovar a história a contrapelo”, como sugere Walter Benjamin, preenchendo as lacunas e integrando sujeitos que foram excluídos das narrativas dominantes. Esse enfoque é crucial no contexto de Santa Catarina, onde a presença de populações indígenas e outros grupos marginalizados são frequentemente invisibilizadas. Essas investigações revisitam o passado e o presente, ampliando a percepção sobre a diversidade de histórias e memórias, e reconhecendo as contribuições e desafios de modos de vida que questionam os modelos dominantes de sociabilidade e aprendizagem.

Encontra-se também inspiração no conceito de “fazer-se”, trazido por Elison Antonio Paim (2005) em sua tese Memórias e Experiências do Fazer-se Professor(a). Baseado em diálogos com Edward Palmer Thompson e Walter Benjamin, Paim concebe o “fazer-se” como um processo contínuo e relacional de formação, no qual as experiências, memórias e narrativas dos sujeitos são fundamentais para sua constituição. Isso implica reconhecer professores e professoras como sujeitos ativos no processo de pesquisa e formação, que constroem seus saberes em relação com o coletivo e com as próprias experiências vividas. Assim, o “fazer-se” não é um evento pontual, mas um processo que se estende ao longo da vida.

A inclusão de um memorial descritivo em uma tese, especialmente no contexto do grupo PAMEDUC, é essencial para evidenciar a relação intrínseca entre o pesquisador e sua pesquisa. O memorial descritivo permite que o autor reflita sobre sua trajetória acadêmica, pessoal e profissional, situando seu percurso em relação ao tema de estudo. Dessa forma, a pesquisa deixa de ser um processo meramente protocolar e passa a ser entendida como uma construção crítica e curiosa, profundamente conectada às experiências e questionamentos vividos pelo pesquisador.

Ao descrever a história e as motivações pessoais do pesquisador, o memorial fortalece a relevância do tema investigado, mostrando como ele emerge de inquietações e interesses genuínos, enraizados no contexto de vida e nas interações do autor com a sociedade. Essa abordagem reflexiva contribui para uma pesquisa mais significativa, na qual o envolvimento do pesquisador transcende a mera coleta de dados, tornando-se parte de um processo contínuo de reflexão, descoberta e crítica.

No contexto do grupo PAMEDUC, que preza pela articulação entre teorias e práticas pedagógicas/educativas diversas, o memorial descritivo serve também como uma ferramenta para promover a autoavaliação, possibilitando que o pesquisador reconheça suas influências, desafios e aprendizados. Essa narrativa pessoal enriquece a pesquisa, pois conecta a experiência do pesquisador ao do campo investigado, gerando resultados profundos e contextualizados.

Outro ponto central dessa abordagem é o questionamento da hegemonia do saber ocidental e colonial, uma crítica que se entrelaça com a lógica da “desaprendizagem” proposta por Catherine Walsh (2009). As pesquisas do PAMEDUC adotam uma postura epistemológica que busca não apenas contestar, mas também subverter a colonialidade do poder e do saber, promovendo diálogos interculturais e reconhecendo saberes que emergem de contextos historicamente subalternizados.

Nesse sentido, as ideias de autores decoloniais como Linda Tuhiwai Smith, Grada Kilomba, Gayatri Chakravorty Spivak e Djamila Ribeiro oferecem um referencial teórico importante. Linda Tuhiwai Smith (2012), intelectual maori, ressalta o perigo de pesquisadores brancos utilizarem os povos indígenas apenas como lócus de estudo, reforçando sua objetificação e subordinação. Grada Kilomba (2019) também aponta como as vozes de pessoas racializadas são sistematicamente desqualificadas, com seus conhecimentos sendo representados por estudiosos brancos que se tornam “especialistas” em suas culturas. Esse tipo de apropriação de saberes também é abordado por Gayatri Spivak (2010), que critica a violência epistêmica cometida pelos intelectuais ocidentais ao representar o “Outro” subalterno, sem dar-lhe a devida voz ou escutá-lo.

Djamila Ribeiro (2017), em seu livro O que é lugar de fala? questiona quem tem direito à voz em uma sociedade estruturada pela branquitude, masculinidade e heterossexualidade, defendendo que a ruptura com essas hierarquias é essencial para trazer à tona vozes subalternizadas. Reconhecer essas dinâmicas de poder na relação entre pesquisador e pesquisados é fundamental, como a própria autora assinala em seu trabalho. O pesquisador deve estar consciente de seus privilégios, especialmente se for um intelectual branco, e buscar formas de organizar a pesquisa de modo que essas assimetrias não sejam acentuadas, mas sim desafiadas.

Outro ponto central no PAMEDUC é que os dados de pesquisa desse grupo são organizados em forma de mônadas, como proposta por Paim (2005) e refletida nas investigações do PAMEDUC, é uma tentativa de romper com o fluxo linear da história que marginaliza vozes e narrativas dissidentes. Ao valorizar as experiências e memórias dos sujeitos, essas pesquisas produzem um conhecimento que vai além das normas acadêmicas convencionais, buscando um compromisso com a vida e com a transformação do presente.

Como aponta Cyntia França (2015), ao propor que trabalhemos com a construção de mônadas em perspectiva benjaminianas, mergulhamos nas sensibilidades e nas diferentes visões de mundo, constituindo-se como uma forma de criar saberes a partir do entrecruzamento de múltiplas temporalidades, sujeitos e espaços. Assim, dialogamos com o conceito de mônada de Walter Benjamin, para o qual:

A ideia é mônada, nela reside, preestabelecida, a representação dos fenômenos, como sua interpretação objetiva. [...] a ideia é mônada, isto significa, em suma, que cada ideia contém a imagem do mundo. A representação da ideia impõe como tarefa, portanto, nada menos que a descrição dessa imagem abreviada do mundo (Benjamin, 2011, p. 36-7).

As mônadas são o resultado de um processo cuidadoso de pesquisa. Um roteiro pré-definido de perguntas sobre as experiências vividas, organizado em eixos temáticos, que guia as entrevistas, mas com a flexibilidade necessária para que novas questões surjam ou sejam ajustadas ao longo dos diálogos. Isso garante que as pessoas entrevistadas tenham autonomia para destacar os pontos mais relevantes de suas trajetórias.

Posteriormente, os pesquisadores, recortaram, organizaram e trabalharam as narrativas de maneira a abordar temas específicos, construindo “constelações”. Inspiradas nas concepções de Benjamin (1994a), essas constelações refletem a relação entre as estrelas e as linhas imaginárias que as conectam, revelando um significado coletivo. Assim, as mônadas apresentadas em cada escrito da pesquisa são tecidas com base nas memórias e experiências das pessoas entrevistadas, entrelaçando suas subjetividades e identidades. Esse processo permite emergir significados profundos, criando um conjunto coeso que vai além da simples soma das partes, evidenciando a riqueza das experiências vividas e os universos complexos que as compõem.

Dessa forma, apresentamos a seguir um exemplo de narrativa apresentada na tese de Costa (2023) em formato de mônadas:

4 O MEU TERRITÓRIO É ONDE EU ESTIVER PISANDO

O território meu não é só lá na aldeia, o meu território é onde eu estiver pisando; na Universidade, na cidade, é vendendo meus artesanatos, é onde eu estiver... Sentada em um cantinho, é meu território também. Então, onde eu estiver pisando, independentemente se na cidade ou na aldeia, é o meu território. Isso vai muito mais além do que a gente imagina (Solange KoKoj).

Após apresentar as mônada na tese Caroline Machado Costa (2023), não realiza uma análise verticalizada ou interpretativa sobre a história da indígena narradora. Em vez disso, opta por um diálogo horizontal das mônadas com outros autores e com suas próprias reflexões, respeitando e valorizando a voz da narradora. Esse movimento evita a imposição de uma leitura hegemônica sobre o relato e busca estabelecer uma troca de saberes em que a história da narradora ocupa um lugar de centralidade. Assim, o texto expressa uma construção coletiva de conhecimento, em que as contribuições teóricas da pesquisadora e de outros autores enriquecem a narrativa sem hierarquizar os saberes, reconhecendo a potência das vivências relatadas e preservando a dignidade e a autonomia das narradoras.

Em linha com essa abordagem metodológica, as pesquisas desenvolvidas pelo PAMEDUC seguem a lógica de uma investigação decolonial que não apenas desafia o eurocentrismo, mas também busca ressignificar o lugar de fala dos grupos marginalizados. Essas investigações tratam as narrativas dos sujeitos pesquisados como legítimas e fundamentais para a construção de um conhecimento mais plural e inclusivo. A partir dessa perspectiva, as pesquisas do grupo não apenas dão visibilidade a essas histórias, mas também as integram de forma ativa e protagonista no cenário acadêmico, promovendo uma escuta sensível e respeitosa das experiências vividas e muitas vezes silenciadas.

Nesse contexto, apresentamos a seguir algumas das principais pesquisas do PAMEDUC, que exemplificam esse compromisso com a inclusão e o reconhecimento das histórias, memórias e saberes que emergem de grupos frequentemente excluídos das narrativas hegemônicas.

Dentre os trabalhos desenvolvidos no PAMEDUC, destacamos a Tese de Ana Karina Brocco (2022) e a dissertação de Tatiana de Oliveira Santana (2017), que possuem em comum a temática indígena e a valorização das narrativas e memórias dos povos estudados nas pesquisas. No caso da tese Memórias e Experiências de Estudantes Indígenas Kaingang na Região Oeste de Santa Catarina - Universidade Federal Da Fronteira Sul/Campus Chapecó/SC de Ana Karina Brocco, a pesquisa se concentra nas experiências e memórias de estudantes indígenas Kaingang na região Oeste de Santa Catarina, buscando entender como a escolarização afeta suas identidades e culturas. Já a dissertação Narrativas femininas Guajajara e Akrãtikatêjê no ensino superior de Tatiana de Oliveira Santana trabalha em colaboração com narradoras indígenas das etnias Guajajara e Gavião/Akrãtikatêjê, com o objetivo de narrar as memórias e experiencias vividas de mulheres e sua relação com a terra, além de problematizar questões de gênero e etnia. Ambas as pesquisas trazem uma perspectiva voltada a ouvir os e as indígenas, permitindo que suas histórias sejam contadas por eles mesmos e não por meio de uma visão exógena, contribuindo para a visibilidade e o reconhecimento de suas culturas e identidades.

Tese Por entre corredores e refeitórios: escovando narrativas e memórias de auxiliares de serviços gerais escolares na busca de relações outras de Maria Cecilia Paladini Piazza e a dissertação Antes que o tempo passe tudo a raso: tambores matriarcais do grupo de Carimbó Sereia do Mar da Vila Silva em Marapanim, no Pará de Sil Lena Oliveira compartilham o objetivo de apresentar as narrativas e memórias de grupos específicos em busca de uma educação mais inclusiva e diversa. Sil Lena pesquisa as carimbozeiras paraenses para registrar suas histórias e tradições, revelando sua forte ligação com a ancestralidade, a terra e a natureza. Já Maria Cecilia foca nas experiências das serventes escolares e busca romper com o silenciamento que essas vozes sofrem no âmbito educacional, evidenciando o valor de suas participações nos processos educativos. Estes trabalhos buscam desconstruir estereótipos e preconceitos por meio de narrativas, sejam elas de um grupo específico ou de indivíduos que geralmente são invisibilizados socialmente. Além disso, evidenciam a importância da escuta empática e da valorização da diversidade cultural.

Os estudos de Patrícia Magalhães Pinheiro, Josiane Beloni de Paula, Técia Goulart de Souza, Odair de Souza, Chiara Lemos Monteiro Carvalho, Janaina Amorin da Silva, Giovanna Santana e Valdemar Lima, apresentam como ponto em comum o debate sobre a educação para as relações étnico-raciais nas escolas públicas brasileiras.

A tese Entre Silenciamentos e Resistências: Educação das Relações Étnico-Raciais nas Narrativas de Professoras/es de Ciências Biológicas da UFSC de Patrícia Magalhães Pinheiro aborda a educação para as relações étnico-raciais nas narrativas de professores/as de Ciências Biológicas e como o racismo é tratado no curso de graduação da UFSC, propondo uma abordagem mais crítica e reflexiva para o ensino das Ciências Biológicas. Josiane Beloni de Paula na tese Andarilhagens de professorxs: práticas de resistências negras na escola pública em Pelotas - RS problematiza práticas de resistência negra na escola pública em Pelotas (RS), a partir de narrativas de professores/as que trabalham contra o racismo e outras formas de opressão. Ela destaca a importância da autoformação e do diálogo entre professores/as para a construção de práticas pedagógicas mais críticas e reflexivas. A dissertação Educação para as relações étnico-raciais no Centro de Ensino Fundamental Miguel Arcanjo – São Sebastião – Distrito Federal: diálogos dentro e fora da escola de Técia Goulart de Souza constrói uma proposta de práticas pedagógicas na disciplina Parte Diversificada (PD), e analisa a sua relação com a educação para as relações étnico-raciais. A autora aponta a importância de contar histórias outras e propõe uma abordagem decolonial do currículo para a disciplina. Odair de Souza na dissertação A educação para as relações étnicorraciais no ensino de história: memórias e experiências de professoras da educação básica, aborda a educação das relações étnico-raciais com foco nas memórias e experiências de professores que trabalham em Garopaba (SC).

O estudo Histórias de mulheres jovens e adultas estudantes: ensino de história como meio de conscientiza-ação de Chiara Lemos Monteiro Carvalho tem como foco a experiência de mulheres na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e destaca a importância da apropriação do conhecimento histórico para o empoderamento e para a formação dessas mulheres, pois lhes permite compreender melhor suas próprias experiências e as relações de poder que permeiam sua vida cotidiana. Janaina Amorin da Silva na tese Coletivo Ação Zumbi – uma história de (re)existência e inspiração para uma educação antirracista e decolonial investigou a importância histórica e política do Coletivo Ação Zumbi, que se identifica, enquanto grupo teatral e movimento negro, como uma inspiração para a educação antirracista e decolonial.

Giovanna Santana, em sua tese Fazer-se professor de História em cursos preparatórios para o ensino superior, dialogou com professores de História que atuaram em cursos preparatórios para o ingresso no ensino superior, pré-vestibulares de organizações públicas e privadas, com o objetivo de investigar o fazer-se docente resultante de suas práticas nesses espaços. E, por fim, Valdemar Lima na tese O branco no preto e o preto no branco: EARER e o uso social da memória no fazer-se antirracista de pessoas brancas investigou o uso social da memória no fazer-se antirracista de pessoas brancas no âmbito da Universidade Federal de Santa Catarina.

Cada um dos estudos citados aborda o tema da educação para as relações étnico-raciais de uma perspectiva a destacar a importância da abordagem crítica e reflexiva sobre essas temáticas e propõem práticas pedagógicas mais inclusivas e diversificadas. Além disso, os trabalhos também ressaltam a importância do diálogo entre professores/as e os desafios de uma educação antirracista.

As dissertações de Daniela Karine dos Santos Acordi, Valdemar de Assis Lima, Pedro Litwin e a Tese de Pedro Mülbersted Pereira trabalham com a temática valorização do patrimônio cultural e histórico. Na dissertação A Casa do Agente Ferroviário de Estação Cocal: Memórias, Educação Para o Patrimônio e Ensino de História Daniela Karine dos Santos Acordi se concentra na Casa do Agente Ferroviário de Estação Cocal em Morro da Fumaça (SC), destacando sua importância como patrimônio cultural do distrito de Estação Cocal. A pesquisa se baseia em narrativas orais de moradores locais e busca promover a valorização do patrimônio cultural e histórico da região, além de propor um projeto de Educação para o Patrimônio a ser desenvolvido com turmas na Educação Básica. Já a tese As fortalezas de Anhatomirim, Ratones e Ponta Grossa: patrimônio e educação de Pedro Mülbersted Pereira (2021), com foco nas fortalezas existentes em Florianópolis analisa o processo de patrimonialização dessas fortalezas e as dimensões educativas presentes nesse processo.

Pedro Litwin na dissertação Educação judaica: processos de fazer-se educador(a) da Marcha da Vida Universitários investigou o processo de formação de educadores/as envolvidos/as em projetos e ações educativo-culturais voltados para o patrimônio judaico, especificamente no contexto do programa de educação não formal Marcha da Vida Universitários. E, por fim, Valdemar de Assis Lima escreveu a dissertação A educação museal no pensamento museológico contemporâneo: musealidade da educação e delineamentos para uma proposta política educacional a partir do uso social da memória inspirada no texto O narrador, de Walter Benjamin, explorando a concepção de educação baseada nos processos museais, que denominamos como educação museal de forma a trazer a cena dos museus brasileiros outras memórias que não sejam aquelas memórias do poder comumente representadas nos espaços de memória.

E por fim tem-se a pesquisa conduzida por Caroline Machado Costa, intitulada Entre corpo-território e racismos: narrativas de mulheres indígenas vivendo em contextos urbanos de Florianópolis reflete a riqueza da abordagem decolonial ao valorizar as vozes de mulheres indígenas que residem em contextos urbanos. As histórias dessas mulheres são narradas com base em entrevistas e observação detalhada, buscando desconstruir estereótipos e reconhecer a presença indígena nas cidades.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

As pesquisas desenvolvidas pelo Grupo Patrimônio, Memória e Educação (PAMEDUC) trazem uma contribuição para a visibilidade das comunidades marginalizadas em uma perspectiva decolonial. Ao desafiar as epistemologias tradicionais, o grupo tem se destacado ao dar visibilidade na academia em espaços de graduação e pós-graduação as narrativas de grupos como indígenas, negros e outros historicamente subalternizados. A abordagem do grupo promove o reconhecimento de saberes, experiências vividas e memórias que não apenas questionam a hegemonia do conhecimento ocidental, mas também oferecem novas formas de pensar e construir outros mundos onde caibam muitos mundos alinhadas a um compromisso ético e social.

Em termos metodológicos, as pesquisas do PAMEDUC rejeitam a rigidez de fórmulas pré-estabelecidas, enfatizando que a metodologia decolonial está em construção constante. A flexibilidade é essencial para adaptar-se às necessidades e especificidades dos sujeitos e grupos pesquisados. O papel do pesquisador, nesse contexto, é de relevância: ele deve estar atento, sensibilizado e empático às realidades das pessoas e das comunidades, garantindo uma postura ética que respeite e valorize suas narrativas. O diálogo horizontal é o ponto chave, onde o conhecimento científico ocidental não é considerado superior, mas um entre muitos conhecimentos.

Esses princípios são expressos na metodologia de pesquisa decolonial que o grupo adota. Tal abordagem reconhece que as histórias, experiências e memórias das comunidades pesquisadas não são apenas fontes de informação, mas formas legítimas de conhecimentos que devem ser acolhidas em suas próprias especificidades. Essa valorização das vozes marginais, como discutido pelos principais autores decoloniais, é essencial para subverter as estruturas de poder e saber, construindo um conhecimento efetivamente inclusivo.

Ao analisar as principais pesquisas desenvolvidas no PAMEDUC, podemos destacar elementos demarcadores de uma metodologia decolonial: a valorização da autonomia dos grupos e pessoas pesquisadas, o reconhecimento da colonialidade em suas diferentes dimensões (poder, saber, ser, gênero e meio ambiente), e o compromisso com a transformação social. Essas pesquisas não apenas oferecem novos entendimentos sobre problemáticas sociais e culturais, mas também contribuem para a construção de uma sociedade mais equitativa, onde vozes antes silenciadas sejam ouvidas e respeitadas.

Assim, o trabalho do PAMEDUC, ao promover um diálogo crítico com as pessoas e comunidades, reforça a importância da inclusão de suas histórias no campo acadêmico, ao mesmo tempo em que desafia as tradições investigativas coloniais e eurocêntricas. O caminho apontado por essas pesquisas, ao promover práticas reflexivas, colaborativas e comprometidas com as realidades sociais, reafirma a importância de uma educação e de uma pesquisa que sejam, de fato, transformadoras.

REFERÊNCIAS

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Endereços para correspondência:

Elison Antonio Paim - Universidade Federal de Santa Catarina, Reitoria, Pró-Reitoria de Desenvolvimento Humano e Social, Campus Reitor João David Ferreira Lima - Centro de Educação- Sala 400, Trindade, 84040900, Caixa-postal: 88037500, Florianópolis, SC. E-mail: elison0406@gmail.com.

Caroline Machado Costa - Universidade Federal de Santa Catarina, Reitoria, Pró-Reitoria de Desenvolvimento Humano e Social, Campus Reitor João David Ferreira Lima - Centro de Educação- Sala 400, Trindade, 84040900, Caixa-postal: 88037500, Florianópolis, SC. E-mail: costacaroline1982@gmail.com


  1. 1 Doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas; Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; Bolsista Produtividade CNPq processo 314583/2020-3, chamada PQ 2020; Professor Associado II da Universidade Federal de Santa Catarina; lotado no Departamento de Metodologia de Ensino (MEN) do Centro de Educação.

  2. 2 Doutora e Mestra em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina; Especialista em Educação Ambiental pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial; Especialista em Engenharia Ambiental pela Instituto de Pós-graduação e Graduação; Especialista em Antropologia pela União Brasileiras de Faculdades.