https://doi.org/10.18593/r.v49.34696
Narrar a si como doação: experiência, ética e integridade na pesquisa autobiográfica em educação
Narrating yourself as donation: experience, ethics and integrity in autobiographical in educational research
Narrativa de uno mismo como donación: experiencia, ética e integridad en la investigación autobiográfica en educación
Alexssandro Schappo1
Universidade Federal da Fronteira Sul; Bolsista UNIEDU no Programa de Pós-Graduação em Educação. http://orcid.org/0000-0002-9452-1792
Bruno Antonio Picoli2
Universidade Federal da Fronteira Sul; Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação, Líder do Grupo de Pesquisa em Educação, Violência e Democracia. http://orcid.org/0000-0001-6831-2199
Resumo: O presente ensaio tem como objeto a dimensão ética da autobiografia na pesquisa em Educação. A partir de uma abordagem teórica pluralista afirma-se que os caminhos para se trilhar em uma pesquisa são vastos, e ao se deparar com uma folha em branco escolhas precisam ser feitas e que elas sofrem influência do lugar que ocupamos, permeado por pressões externas e o desejo de construir uma pesquisa significativa, para além da adequação técnica. No ato de narrar a si nos doamos ao Outro e ao mundo, implicando em um despojamento de si, um “eis-me aqui” que não exige nada em troca, configurando-se como um ato ético radical. O texto está organizado em duas partes. Na primeira explora a relação da autobiografia com as noções de experiência e escrevivência, a partir de Evaristo (2020a, 2020b) e Larrosa (2017, 2021) e, na segunda, reflete sobre o propriamente ético na pesquisa autobiográfica com o suporte em Levinas (2009) e Souza (2016, 2018). Afirma a autobiografia em educação como a eticidade de um gesto que compreende a quintessência da pesquisa em Educação por indagar sobre como se torna o que se é e por oferecer-se sem exigência de reciprocidade ao Outro.
Palavras-chave: autobiografia; ética; experiência.
Abstract: This essay focuses on the ethical dimension of autobiography in Educational research. From a pluralistic theoretical approach, it is stated that the paths to follow in research are vast, and when faced with a blank sheet of paper, choices need to be made and that they are influenced by the place we occupy, permeated by external pressures and the desire to build meaningful research, beyond technical adequacy. In the act of narrating, we donate ourselves to the Other and to the world, implying a stripping of ourselves, a “here I am” that demands nothing in return, configuring itself as a radical ethical act. The text is organized into two parts. In the first, it explores the relationship between autobiography and the notions of experience and escrevivência, based on Evaristo (2020a, 2020b) and Larrosa (2017, 2021) and, in the second, it reflects on what is properly ethical in autobiographical research with support from Levinas (2009) and Souza (2016, 2018). It affirms autobiography as the ethics of a gesture that comprises the quintessence of research in Education by asking about how one becomes what one is and by offering oneself without requiring reciprocity to the Other.
Keywords: autobiography; ethic; experience.
Resumen: Este ensayo se centra en la dimensión ética de la autobiografía en la investigación educativa. Desde un enfoque teórico pluralista, se afirma que los caminos a seguir en la investigación son vastos, y ante una hoja en blanco es necesario tomar decisiones y que éstas están influenciadas por el lugar que ocupamos, permeadas por presiones externas y el deseo de construir una investigación significativa, más allá de la adecuación técnica. En el acto de narrar nos donamos al Otro y al mundo, implicando un despojo de nosotros mismos, un “aquí estoy” que no exige nada a cambio, configurándose como un acto ético radical. El texto está organizado en dos partes. En el primero, explora la relación entre autobiografía y las nociones de experiencia y escrevivência, a partir de Evaristo (2020a, 2020b) y Larrosa (2017, 2021) y, en el segundo, reflexiona sobre lo propiamente ético en la investigación autobiográfica con apoyo de Levinas (2009) y Souza (2016, 2018). Afirma la autobiografía como la ética de un gesto que constituye la quintaesencia de la investigación en Educación al preguntarse cómo uno llega a ser lo que es y al ofrecerse sin exigir reciprocidad al Otro.
Palabras clave: autobiografía; ética; experiencia.
Recebido em 12 de abril de 2024
Aceito em 10 de julho de 2024
1 INTRODUÇÃO
O presente ensaio se propõe a uma discussão sobre a dimensão ética da pesquisa autobiográfica em Educação. Para além disso, é uma reflexão autobiográfica feita a quatro mãos (uma autoprosopografia?), em que um dos autores não pode deixar de contaminar-se pela experiência recente de ter desenvolvido uma pesquisa autobiográfica em Educação e o outro, por sua vez, não pode evitar o entrelaçamento desse tema com o fato de ter orientado uma pesquisa autobiográfica em Educação (Schappo, 2024). Esse embaralhamento é de emoções e “razões”. Para um, a atividade limite de expor-se à crítica, que primeiro vem do orientador, depois da banca, por fim dos leitores. Para o outro, a problemática tarefa de separar sem separar aspectos teóricos e metodológicos das questões sensíveis trazidas à luz pelo orientando e que precisavam ser inquiridas, esclarecidas, aprofundadas ao limite da preservação da integridade do autor, do texto e da própria relação orientador-orientando.
Portanto, o texto mobiliza autores e reflexões que se dedicaram a pensar a experiência, o lugar da pessoa do autor no texto e a dimensão ética da escrita tensionado para a narração de si, para a experiência autobiográfica e para a própria elaboração autobiográfica enquanto experiência. A abordagem teórica aqui situa-se no campo do pluralismo epistemológico, em que não há a defesa de um caminho único, mas um esforço dialógico entre diferentes possibilidades discursivas, abraçando e assumindo as contradições em que esse exercício pode incorrer. Busca-se apontar desafios e potencialidades de um entrelaçamento teórico cujas raízes estão fixadas em nossas experiências, e delas se nutrem. Portanto, se fala de um conhecimento que nasce “em mim mesmo”, mas que encontra significado ao ser elaborado à luz dos autores e das reflexões que são inseridos no tecer do texto. Somos convocados a olhar mais de perto para nós mesmos, para nossas práticas e também às práticas às quais fomos submetidos ao longo dos processos de formação, buscando entender que lugar fomos levados a ocupar – e para além disso, que outros lugares ainda queremos ocupar. Ademais, se intenta formular um discurso dialógico resistente ao ideal normalizador que ameaça os processos educativos enquanto formação humana e espaço potencialmente aberto ou Outro (Biesta, 2013; Picoli, 2021).
Desta forma, o artigo é sistematizado em dois diferentes momentos. O primeiro, intitulado “Autobiografia, experiência e educação” articula os conceitos de experiência (Larrosa, 2017) e escrevivência (Evaristo, 2020a, 2020b), ressaltando a escrita de si como um ato político-poético no compartilhamento de memórias e histórias de vida que dialogam com realidades coletivas. A segunda parte se intitula “Autobiografia, ética e integridade” e busca refletir sobre o ético na pesquisa autobiográfica, ou seja, sua relação com o Outro e com a verdade.
2 AUTOBIOGRAFIA, EXPERIÊNCIA E EDUCAÇÃO
A pesquisa autobiográfica é geminada através de experiências de vida, de coisas que atravessam o corpo-espaço do pesquisador. Escrever sobre si é uma tentativa de criar um lugar para habitar, um lugar para se perder, se demorar (Larrosa, 2017, 2021), pensar sobre suas experiências e, em diálogo, significá-las para que não se bastem em si mesmas, para que não delimite a fronteira de até onde o sujeito deve ir, mas para que possam servir de impulso para sua invenção.
Evaristo (2020b) afirma que desde a adolescência a leitura havia sido uma forma de suportar o mundo, na criação de um tempo e de um espaço em que momentaneamente as coisas do mundo eram suspensas, para dedicar atenção a uma história outra, que não era a sua, mas que subjetivamente poderia dialogar com suas próprias vivências. Era uma fuga que, para Evaristo (2020b) possibilita sonhar com diferentes configurações de existência. Mas além de suportar um mundo insuportável, a autora afirma que precisava se inserir nesse mundo de alguma forma e agir sobre ele. E para isso, a escrita se fez presente:
E se, inconscientemente, desde pequena, nas redações escolares eu inventava outro mundo, pois dentro dos meus limites de compreensão, eu já havia entendido a precariedade da vida que nos era oferecida, aos poucos fui ganhando uma consciência. Consciência que compromete a minha escrita como um lugar de autoafirmação de minhas particularidades, de minhas especificidades como sujeito-mulher-negra (Evaristo, 2020b, p. 53).
Ao parar para pensar, escrever e elaborar suas experiências através de personagens ficcionais ou não, Evaristo (2020b) cria uma consciência de si mesma e de seu lugar no mundo - o que ocupa e o que deseja ocupar. A escrita de si a encaminha para um processo de subjetivação que a faz assumir uma postura em relação ao mundo e ao Outro, conseguindo se firmar dentro desse cenário através de sua ancestralidade e história de vida. Esse movimento Evaristo (2020b) nomeou de escrevivência, “É uma literatura em que a escolha semântica está profundamente relacionada com a minha situação social ou com a experiência social que já vivi” (Evaristo, 2020b, p. 40). Apesar de ter a afro-brasilidade como lugar de fala, Evaristo consegue convocar as mais diversas histórias e experiências para se elaborarem através da escrita, convidando diversas frentes a reivindicarem seus espaços e assumirem posturas éticas em relação ao mundo.
A reflexão a partir do acontecimento, a partir de episódios de uma vida ou mesmo da própria vida tomada a partir de uma perspectiva ampliada temporalmente, se aproxima do conceito de experiência, apresentado por Larrosa (2021, p. 21). De acordo com o autor, “A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca”, sendo este um fenômeno que se passa em mim e não por mim, e que por isso nos forma, e principalmente, nos transforma. O autor assinala que o mundo contemporâneo se inscreve em um contexto que dificulta momentos em que a experiência possa ser sentida, analisada, fruída. Isto ocorre devido ao constante bombardeamento de informações, criando uma obsessão por estar informado, inteirado do que se passa no mundo nos âmbitos mais banais, porém, ao nos tornarmos sujeitos da informação o que conseguimos é que nada nos aconteça (Larrosa, 2021, p. 23). Benjamin (2019, p. 86) indaga de que serve toda a produção cultural de que temos acesso se não houver uma experiência que nos ligue a ela. O autor argumenta que o avanço da técnica – e, desde que publicou estas palavras, esse avanço tomou ares de pervasivo e seus produtos são ubíquos, sobretudo as técnicas e tecnologias de comunicação, entretenimento e acesso à informação – produz um tipo novo de pobreza: uma pobreza de experiência pelo excesso de “experiências”. Não se suporta mais o tédio e o silêncio, e a insatisfação parece uma sensação inerente à nossa existência. Uma espécie de fome de novidade (de consumir) que ao ser consumida não deixa experiência, mas fome, vazio, falta. Nesse sentido, Larrosa (2021, p. 22) afirma que
O sujeito da informação sabe muitas coisas, passa seu tempo buscando informação, o que mais o preocupa é não ter bastante informação; cada vez sabe mais, cada vez está melhor informado, porém, com essa obsessão pela informação e pelo saber (mas saber não no sentido de “sabedoria”, mas no sentido de “estar informado”), o que consegue é que nada lhe aconteça.
E, conforme Larrosa (2021), somente o sujeito da experiência é capaz de oferecer seu corpo como o espaço da transformação. Experiência que se dá não apenas com o que me acontece, mas com o que eu faço com o que me acontece. Os estímulos fugazes e imediatistas nos condicionam a uma posição de consumo constante. Consumo não somente de produtos, mas também do mundo e de nós mesmos, sem que reste tempo para a contemplação e a reflexão, nos impondo a necessidade de se dobrar constantemente à conhecimentos e práticas utilitárias. Na pobreza de experiência, lembra-nos Benjamin, há um anseio sempre suprimido (por uma novidade qualquer) de libertação das experiências (pobres) para “afirmar de forma tão pura e clara a sua pobreza” (2019, p. 89). Ou seja, uma necessidade, cujo acolhida é adiada indefinidamente, de parar. Parar para olhar para si, parar para pensar. Talvez “daí nasça alguma coisa”, talvez uma efetiva experiência.
A perspectiva que se busca propor é da narrativa de si como um contradispositivo ético capaz abrir frestas em uma história naturalizada sobre desigualdades e invisibilidades. Uma narrativa que potencialize a elaboração de nossas experiências enquanto aquilo que nos constitui. “As histórias importam. As pequenas histórias importam, os sujeitos comuns importam e movimentam toda a história maior, que nos é apresentada como verdade estática feita de heróis e histórias únicas” ressaltam Vieira e Bragança (2020, p. 15). Uma pesquisa acadêmica estruturada através da narrativa autobiográfica abre espaço para histórias silenciadas, negligenciadas, histórias que passam a problematizar os dispositivos normatizadores da desigualdade, provocando aí uma nova consciência em relação ao mundo e ao outro. Uma consciência que constitui a relação consigo mesmo e amplia nossas possibilidades dialógicas, pois apesar da autobiografia ser sobre si, ela nunca é somente sobre si. Não está centrada em si de forma narcísica (Souza, 2018, p. 55), mas se alimenta eticamente da relação com o Outro (Levinas, 2009; Souza, 2016).
O cânone sacraliza o mundo como ele se apresenta (Agamben, 2007). Seus dispositivos ditam a norma e delimitam as possibilidades de movimentação (Agamben, 2009). Modela indivíduos (Gur-ze’ev, 2007). Como exercício de poder delimita o que pode ser visto e o que não pode (Biesta, 2013). Inserido nesses jogos de poder somos constantemente convidados a não pensar sobre eles, reafirmando, assim, sua “natureza” e “verdade”. Esse convite é adocicado pelas demandas que temos enquanto indivíduos frágeis em um mundo complexo, difícil. Mas é um doce amargo. É um processo que nos marca de diferentes formas em todas as etapas da nossa existência. Na infância, por exemplo, encontramo-nos em um momento da vida em que temos a necessidade da sensação de pertencimento, de sentirmo-nos acolhidos e legitimados, independente das características que possamos carregar. Isso implica um elevado custo humano cujo pagamento acompanha o indivíduo por toda a vida e tem papel demasiado importante em sua trajetória. A reflexão sobre si, sobre como se torna o que se é, é uma forma de profanar essa sacralidade, de reconhecer o amargo no doce, um contradispositivo que reivindica a humanidade interditada. A experiência da reflexão autobiográfica possibilita encontrar as “marcas-feridas” da existência:
Refiro-me a marcas de experiências que produzem em nós um estado de enfraquecimento de nossa potência de agir que ultrapassa um certo limiar, uma espécie de intoxicação. Uma marca desse tipo permanece portadora de um veneno que pode a qualquer momento vir a se espalhar e contaminar tudo. Ora a escrita, enquanto instrumento do pensamento, tem o poder de penetrar essas marcas, anular seu veneno, e nos fazer recuperar nossa potência (Rolnik, 1993, p. 10).
Trata-se, portanto, de “(...) colocar o dedo na ferida aberta” (Tessler, 2002, p. 106): “Lá, onde há sensibilidade, carne ou nervo exposto, há também a possibilidade de construção de um novo corpo”, apontando para a importância da investigação do que me acontece, numa autorreflexão sobre aquilo que sensibiliza, na construção de um conhecimento que começa em mim, mas que ao ser externalizado passa a ser de quem mais o encontrar. Na medida em que outras existências são afetadas por esse conhecimento, cria-se aí uma rede dialógica plena de significados.
Como explicitado por Evaristo (2020a, p. 36) “a Escrevivência extrapola os campos de uma escrita que gira em torno de um sujeito individualizado”. Dito em outras palavras, a narrativa de si cumpre também um papel social ao nos apresentar aspectos que envolvem nossas relações e problemáticas coletivas. Escrever sobre nossas próprias vivências têm uma característica de democratização, de busca por visibilidades que possam levar ao pensamento e à ação, num exercício que é atravessado por coletividades.
A própria história, afetada por microrrelações sociais, é utilizada como uma narrativa de afirmação no mundo, num momento em que se dedica a elaborar nossas marcas-feridas, trazendo-as para o campo consciente na criação de uma rede de significados para que se possa problematizar, compreender e transformar. Assim, podemos encontrar em nossas vivências uma potência criadora, num processo investigativo que possibilita o trilhar de uma nova subjetivação; uma invenção do Ser, para além dos dispositivos que nos modelam (Gur-Ze’Ev, 2007, Agamben, 2009, Picoli, 2021). A experiência é a consciência de um corpo vivo e pulsante. Um corpo que ao negar dobrar-se à lógica instrumental reivindica a si mesmo como um espaço de acontecimentos.
O pensamento sobre si que se articula através da pesquisa autobiográfica se constitui como um caminho para se tomar decisões fundamentadas ética e esteticamente em um mundo de difícil elaboração de experiências, em que predomina o assédio pela novidade, pela produtividade e pelo utilitarismo. Antes de vir à tona a imagem de um sujeito capaz de uma postura ética e responsável, capaz de suas próprias escolhas, deve-se considerar como esse sujeito se forma, os caminhos que o levaram a ocupar esse lugar (Butler, 2017). Desta forma, a autobiografia se qualifica como um movimento para se pensar a pesquisa em educação desde uma perspectiva de formação humana, para o outro e para o mundo (Larrosa, 2017), atingindo uma dimensão coletiva a partir da reflexão de histórias pessoais. Assumir uma postura autorreflexiva se apresenta como uma necessidade para que possamos inaugurar novos inícios. É um exercício intelectual, mas que, enquanto experiência, perpassa toda a nossa existência e possibilita o encontro com o desconhecido.
3 AUTOBIOGRAFIA, ÉTICA E INTEGRIDADE
Pode parecer estranha uma reflexão sobre “ética na pesquisa” para pesquisas autobiográficas. Por isso é preciso definir o que entendemos por ética. O melhor caminho nos parece ser definir primeiro o que não entendemos como ética, ou melhor, qual conceito de ética refutamos: a perspectiva instrumental, a ética como um “como de um para quê”, um manual de conduta que, ao fim e ao cabo, protege o pesquisador, a instituição e os financiadores à despeito das preocupações com o público envolvido. Para evitar mal-entendidos: estamos falando de ética em pesquisa nas humanidades, especialmente em educação. É evidente, e infelizmente o século XX é repleto de exemplos que afirmam isso, que há a necessidade de um conjunto de procedimentos regulados para pesquisas que colocam em risco a integridade física e/ou moral de pessoas ou grupos. O que estamos tensionando aqui é o fetiche metodológico (Plá, 2022, p. 130) que consiste na “convicção de que a qualidade da investigação baseia-se principalmente no método” (tradução nossa). Método que precisa ser apresentado a um comitê que, então, carimba a pesquisa e, logo, a atuação do pesquisador, como ética ou não ética.
De nossa parte entendemos ética a partir de uma perspectiva fundamental e não instrumental. A ética como fundamento da existência e como chamado à justiça (Souza, 2016). Ética sempre tem relação com o Outro. Logo, ética é sempre um tensionamento, uma dificuldade, um desconforto, ou melhor, uma renúncia ao conforto e à segurança que a privação do Outro assegura. O Outro, aqui, não é um “outro eu”, mas absoluto em sua outridade (Gur-Ze’ev, 2007; Levinas, 2009), não objetificado e/ou tornado conteúdo para ser consumido. Levinas (2009, p. 44) afirma que ética compreende uma “Obra”, ou seja, implica uma retidão na ação que não pode ser subsumida em um ato furtivo ou em um intervalo de tempo preestabelecido. Então, ética enquanto fundamento implica uma entrega de si, um impulso para fora de si, para fora do Mesmo em direção ao Outro (Picoli; Guilherme; Brito, 2021)
a Obra pensada radicalmente é um movimento do Mesmo que vai em direção ao Outro e que jamais retorna ao Mesmo. A Obra, pensada até o fim, exige uma generosidade radical do movimento que, no Mesmo, vai na direção do Outro. Exige, por conseguinte, uma ingratidão do Outro” (Levinas, 2009, p. 44-45, grifos do autor).
Quando escrevemos, escrevemos para alguém. Na medida em que tornamos públicos nossos textos perdemos o controle sobre eles ao mesmo tempo que entregamos parte de nós mesmos ao Outro. É uma doação de si ao Outro. Mais do que isso, é uma doação de si ao tempo do Outro, que pode nem ter vindo ao mundo ainda, haja vista que é da natureza de um texto sobreviver ao seu autor. Esse é o sentido de “ingratidão” em Levinas: o ato ético não pode estabelecer condição e não pode requerer reciprocidade do Outro. Conforme Souza (2018, p. 55)
Quem escreve com vigor e pertinácia, perseverança e ansiedade, sinceridade e energia concentrada, cuidado extremo e extrema coragem, despossuindo-se no ato de se entregar, pela escrita, à imponderabilidade de um destino aberto, esse sulca pequenas mensagens de estranha esperança, que encerra então delicadamente nas garrafas que serão lançadas no mar da incerteza. A verdadeira escrita é a mais pungente testemunha de deflação narcísica.
A escrita autobiográfica, nesse sentido, implica o despojamento, um “eis-me aqui” que não exige nada em troca. É um ato ético radical porque é doação de si a fundo perdido. É acolhimento à alteridade pela evisceração de si, pela exposição de que também se está frágil, de que também se enfrenta demônios, de que também não se tem todas as respostas e sobretudo, de que também precisa do Outro. É uma manifestação de que, antes do pesquisador ou da pesquisadora, há um ser humano.
O uso da experiência deve ser encarado no sentido de potencializar a pesquisa em educação, na criação de um conhecimento que não seja meramente situacional e dependente do contexto específico em que a pesquisa foi realizada. Plá (2022) defende a criação de uma linha discursiva que seja passível de descontextualização do referente em si, para que a partir dele se possa refletir realidades outras. Para situar a ideia de descontextualização do conhecimento criado a partir da investigação em educação, Plá (2022, p. 42) nos oferece uma analogia em relação ao campo das artes: em 1917, Marcel Duchamp apresentou ao público uma de suas obras mais polêmicas; tratava-se de um mictório masculino, um objeto produzido em escala industrial e destinado para um uso específico, um utilitário cotidiano. Ao colocar esse objeto dentro de um espaço institucionalizado e designar-lhe uma posição de objeto de arte, ele passa a assumir uma nova significação, um diferente (des)uso, e as pessoas passam a olhar para ele de uma forma diferente da imagem que tinham anteriormente. Agora, passa a ser “A Fonte”, um objeto que questiona esteticamente os padrões de representação, abrindo também a discussão sobre o que é arte. Da mesma forma, nos apropriamos de uma experiência formativa, que, permeada por tensionamentos teóricos, passa a assumir uma nova forma. Descontextualizada, as experiências elaboradas através da pesquisa nos impulsionam para a criação de diferentes significados na criação de um conhecimento que não se impõem pela praticidade instrumental ou pela prescrição, mas que se pauta fundamentalmente em nossa formação humana e na assunção de uma postura ética.
Há também outra importante consideração a ser feita. Além de ter relação com o Outro, com a responsabilidade e a abertura, com a doação, ética tem relação com a verdade. Aqui entendendo verdade não no sentido positivista, mas com a não falsificação. Em pesquisas em que é comum que se mobilize memória é difícil que se preservem, ou mesmo que tenham algum dia existido, algum outro recurso que atenda à condição de fonte, de objeto verificável do narrado. Essa dificuldade se verifica na pesquisa autobiográfica, mas também em pesquisas biográficas ou para qualquer reflexão que mobilize memórias. Então essa elaboração, se ética, precisa deixar claro o tempo de sua enunciação, não no sentido de data e hora obviamente, mas em que momento da vida ela ocorre. Precisa deixar claro, então seu “lugar de fala”. E por lugar aqui entendemos algo significativamente abrangente: em termos de classe social, de orientação sexual e identidade de gênero, étnico-raciais, de atuação profissional, etários etc. É claro que o autor ou a autora não precisa, antes de iniciar seu texto propriamente dito, apresentar ao leitor a sua “ficha”, mas externar que, embora o texto autobiográfico nasça “em mim mesmo”, o “eu mesmo” não é um ser isolado no mundo. Conforme Ribeiro (2018, p. 48)
entendemos que todas as pessoas possuem lugares de fala, pois estamos falando de localização social. E, a partir disso, é possível debater e refletir criticamente sobre os mais variados temas presentes na sociedade. O fundamental é que indivíduos pertencentes ao grupo social privilegiado em termos de locus social consigam enxergar as hierarquias produzidas a partir desse lugar e como esse lugar impacta diretamente na constituição dos lugares de grupos subalternizados.
O que se quer dizer aqui é que, na medida em que o entrelaçamento narrativo vai avançando e questões sociais, étnico-raciais, profissionais, etárias, de orientação sexual e identidade de gênero, de afiliação política etc. emerjam, o narrador não pode ocultar seu “viés” sob o manto de uma suposta neutralidade. Em outras palavras, precisa deixar claro que se trata de um exercício ficcional e performático de elaboração da realidade atravessados por um sem-número de situações, influências, sentimentos, desejos, interesses etc. Pois “a pesquisa é uma ação individual, enquanto escrita em ato, e coletiva: abertura de um espaço no qual o texto se faz com outros textos, em conexões infindáveis, transversais e indizíveis em sua totalidade” (Esteves; Adó, 2020, p. 357).
Para não haver dúvidas: ficção e falsificação não são a mesma coisa. O texto de uma pesquisa é sempre ficcional porque é impossível transpor qualquer objeto para a linguagem sem transformá-lo em discurso. Mesmo uma fotografia não captura a realidade, mas a elabora em uma nova linguagem (Flusser, 2002). Portanto o ficcional aqui não tem o mesmo sentido que o ficcional da literatura, embora neste caso também não se trate de falsificação do real, “muito pelo contrário, mergulha em sua turbulência” (Saer, 2009, p. 2 apud Esteves; Adó, 2020, p. 357) multiplicando as possibilidades de tratamento do real e inflacionando o próprio real (Souza, 2018, p. 161ss). O ficcional da autobiografia é o reconhecimento da impossibilidade da reprodução perfeita da experiência passada e, sobretudo, de que o próprio exercício autobiográfico compreende uma “experiência” e, logo, não pode ser vivido duas vezes de forma idêntica.
Considerando que ética não tem relação com um conjunto verificável de procedimentos, nem mesmo com a outorga de um registro e que, portanto, nenhuma fonte externa (salvo uma concepção instrumental e, portanto, limitada de ética) pode estabelecer a eticidade ou seu contrário; considerando também que a ética tem relação com a responsabilidade, com o Outro para quem se dirige nossas ações; bem como com o compromisso com a verdade, com a não falsificação em um ato que é, como afirmado, ficcional, compreendemos que o que é propriamente ético na escrita autobiográfica é o testemunho de sua honestidade, ou seja, o reconhecimento de seus limites, de sua condição transitória, de sua inverificabilidade e de sua insuperável inconclusão.
A essência da escrita é o testemunho de sua honestidade, do ato ético no qual escrever se constitui; [...] a escrita verdadeira encontra-se a si mesma no radical ato ético que significa voltar-se inteiramente para fora de si mesma, com a finalidade confessada de encontrar a si mesma. [...] (Souza, 2018, p. 60).
Este encontro não é com o Mesmo, mas com um eu atravessado pela experiência (Larrosa, 2021), pelo desconforto de ter-se posto a pensar em como tornou-se o que se é. Essa é, talvez, a pergunta mais importante em Educação: como nos tornamos o que somos? Isso exige mexer onde dói (Tessler, 2002), tensionar aqueles momentos da vida em que decisões foram tomadas, por nós ou por terceiros, refletir sobre elas à frio, porque há um distanciamento temporal, e à quente, porque provocam o (res)sentir, concomitantemente. Evaristo (2020b, p. 53) lembra que escrever era uma forma de suportar a precariedade do mundo e da própria vida vivida. Escrever sobre si, revelar-se em uma tela, em uma folha de papel, não é algo fácil, nem mesmo algo que facilita a vida. Mas é a “eticidade de um gesto que, por sua própria substância, subsiste e se impõe às ardilosas artimanhas da convivência com o insuportável” (Souza, 2018, p. 60, grifos do autor). Expor-se de tal modo, como todo ato ético, exige coragem (Souza, 2018; Levinas, 2009; Picoli, Guilherme, Brito, 2021).
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na pesquisa autobiográfica nossas marcas são o desassossego que nos impulsiona para o pensamento, para a tentativa de dar-lhes um corpo através da escrita, do estudo, da concentração, do demorar-se nas coisas que nos acontecem. Esse exercício também opera no silêncio e nos permite não fazer nada, sem que estejamos ligados a uma atividade produtiva de resultados mensuráveis. Dobrar-se a mensurabilidade sem problematizá-la, sem transpô-la ao pensamento, contribui para a normalização de nossos corpos e para a naturalização desses processos. Desta forma, o ensaio aqui apresentado buscou articular uma reflexão sobre os fundamentos éticos da pesquisa autobiográfica para além de uma descrição instrumental da ética como um conjunto de procedimentos. A partir de Levinas (2009) compreendemos a ética como uma Obra, um movimento que coreografamos ao encontro do Outro. Desde o momento desse encontro jamais retornamos para a nossa posição inicial. Portanto, a ética na pesquisa autobiográfica implica em uma entrega de si, um doar-se sem esperar nada em troca.
Ouvir a voz do Outro, atentando para a multiplicidade de experiências formativas que se inscrevem dentro do processo educativo, se apresenta como um convite a pensar a educação além da mensurabilidade e dos contornos já definidos. A experiência é sempre imprevisível, inclusive os encontros que dali podem surgir. Abrir espaços em que diferentes subjetividades sejam legitimadas nos permite perceber de forma singular como enfrentamos situações sociais em nossos próprios corpos, como elas nos afetam, e como isso nos constitui enquanto pesquisadores. Uma fonte que narra a si mesmo revela pistas que compõem um cenário amplo, que se liga a realidades outras e torna-se capaz de refletir sobre contextos formativos de forma coletiva e dialógica.
Ao desenvolver uma pesquisa desse teor, nos expomos e deixamos claro qual é o lugar político que ocupamos. Portanto, a pesquisa autobiográfica se estabelece de forma ética ao negar espaços de neutralidade, convocando-nos a assumir nossos lugares através de uma postura aberta ao encontro com o Outro. Uma postura que, uma vez assumida, nos torna conscientes sobre nossa responsabilidade em relação ao mundo e à integridade do que o caracteriza enquanto um espaço comum, compartilhado.
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Endereços para correspondência:
Alexssandro Schappo - Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Chapecó, Avenida General Osório, 413D, Jardim Itália, 89802210, Chapecó, SC, Caixa-postal: 181. aleschappo@gmail.com.
Bruno Antonio Picoli - Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Chapecó, Avenida General Osório, 413D, Jardim Itália, 89802210, Chapecó, SC, Caixa-postal: 181. bruno.picoli@uffs.edu.br.
1 Mestre em Educação pela Universidade Federal da Fronteira Sul; Especialização em Fundamentos e Organização Curricular pela Universidade do Oeste de Santa Catarina; Especialização em Arte, Educação e Terapia pela Faculdade de Conchas.
2 Doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; Mestre em História pela Universidade de Passo Fundo; Graduado em História pela Universidade do Oeste de Santa Catarina, Campus Xanxerê. Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Chapecó; Líder, desde 2019, do Grupo de Pesquisa em Educação, Violência e Democracia.