https://doi.org/10.18593/r.v49.34590

A pesquisa como estratégia de ensino e aprendizagem na formação de professores(as): Estado da Questão

Research as a teaching and learning strategy in teacher training: State of the Question

La investigación como estrategia de enseñanza y aprendizaje en la formación docente: Estado de la cuestión

Antonio Evanildo Cardoso de Medeiros Filho1

Universidade Estadual do Ceará; Professor efetivo vinculado ao curso de Pedagogia.

https://orcid.org/0000-0002-4442-162X

Messias Holanda Dieb2

Universidade Federal do Ceará; Professor do Departamento de Fundamentos da Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação. https://orcid.org/0000-0003-1437-791X

Resumo: O estudo tem como objetivo analisar produções científicas publicadas nos últimos 10 (dez) anos que discutem as contribuições da pesquisa como estratégia de ensino e aprendizagem na formação inicial de professores(as), mediante o Estado da Questão. Como aporte teórico, destacam-se, principalmente, os escritos de André (2008), Demo (2015), Gamboa (2018) e Severino (2009) que reportam a pesquisa como instrumento inerente ao trabalho docente. As buscas das referidas produções foram realizadas nos sítios eletrônicos: Scientific Electronic Library On-line (SciELO), Portal de Periódicos CAPES, Google Acadêmico e Catálogo de Teses e dissertações da CAPES (CTD da CAPES). Foram aplicadas 3 (três) equações constituídas por descritores validados no Thesaurus Brasileiro da Educação (BRASED), e separados com operadores Booleandos AND e OR. Os trabalhos selecionados defendem o ensino com e pela pesquisa, a fim de potencializar os processos de ensino e de aprendizagem. Para tanto, requer uma postura investigativa de professores(as) e estudantes ao longo da formação acadêmico-profissional e não apenas de forma isolada em alguns componentes curriculares.

Palavras-chave: docência; educar pela pesquisa; produção do conhecimento.

Abstract: The study aims to analyze scientific productions published in the last 10 (ten) years that discuss the contributions of research as a teaching and learning strategy in initial teacher training, through the State of the Question. As a theoretical contribution, the writings of André (2008), Demo (2015), Gamboa (2018) and Severino (2009) stand out, who report research as an instrument inherent to teaching work. The searches for the aforementioned productions were carried out on the following websites: Scientific Electronic Library On-line (SciELO), CAPES Periodical Portal, Google Scholar and CAPES Theses and Dissertations Catalog (CAPES CTD). Three (3) equations were applied, consisting of descriptors validated in the Brazilian Education Thesaurus (BRASED), and separated with Boolean operators AND and OR. The selected works defend teaching with and through research, in order to enhance the teaching and learning processes. To do so, it requires an investigative stance from teachers and students throughout academic-professional training and not just in isolation in some curricular components.

Keywords: teaching; educate through research; knowledge production.

Resumen: El estudio tiene como objetivo analizar producciones científicas publicadas en los últimos 10 (diez) años que discuten los aportes de la investigación como estrategia de enseñanza y aprendizaje en la formación inicial docente, a través del Estado de la Cuestión. Como aporte teórico se destacan los escritos de André (2008), Demo (2015), Gamboa (2018) y Severino (2009), quienes reportan la investigación como un instrumento inherente al quehacer docente. Las búsquedas de las producciones antes mencionadas se realizaron en los siguientes sitios web: Biblioteca Científica Electrónica en Línea (SciELO), Portal de Revistas CAPES, Google Scholar y Catálogo de Tesis y Disertaciones CAPES (CAPES CTD). Se aplicaron tres (3) ecuaciones, compuestas por descriptores validados en el Tesauro Brasileño de Educación (BRASED), y separados con operadores booleanos AND y OR. Los trabajos seleccionados defienden la enseñanza con y a través de la investigación, con el fin de potenciar los procesos de enseñanza y aprendizaje. Para ello, se requiere de una postura investigativa por parte de docentes y estudiantes a lo largo de la formación académico-profesional y no sólo de manera aislada en algunos componentes curriculares.

Palabras clave: enseñando; educar a través de la investigación; producción de conocimiento.

Recebido em 29 de fevereiro de 2024

Aceito em 15 de outubro de 2024

1 INTRODUÇÃO

O estudo problematiza as contribuições da pesquisa como estratégia de ensino e aprendizagem na formação inicial de professores(as), a partir de produções científicas publicadas nos últimos 10 (dez) anos. Por mais que esteja presente na legislação educacional brasileira, a pesquisa aparece ora de forma mais incisiva ou exemplificativa, como nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN’s) de formação de professores(as) de 2015, ora de maneira “tímida” e genérica, como nas atuais DCN’s de formação de professores(as) de 2019 (Brasil, 2015; 2019). Esses dois aspectos, portanto, nos convidam a inquirir sobre o modo como a literatura científica, especializada no campo da educação, tem abordado a relação entre a pesquisa e as estratégias de ensino e aprendizagem na formação inicial de professores(as).

Como aporte teórico, recorremos, principalmente, aos escritos de André (2008), Demo (2015), Gamboa (2018) e Severino (2009) que consideram a pesquisa como instrumento inerente ao trabalho docente. Em consonância com esses autores/as, consideramos que a atuação no cenário educacional requer a compreensão das relações emergentes e interdependentes que envolve os processos de ensino e aprendizagem, para, assim, criar possibilidades de produção e difusão de conhecimentos. Cabe demarcar, também, que, a partir do diálogo com aqueles autores, compreendemos que uma adequada “formação de professores(as)” deva conflituar todas as ideias e propostas de uma formação imediatista, estática, simplificada e pragmática. Isto é, defendemos a urgência no empreendimento de uma formação que seja contextualizada e crítico-reflexiva, a qual estimule o desenvolvimento teórico, científico e cultural dos(as) professores(as), considerando a indissociabilidade teórico-prática e perpassando criticamente os contextos políticos, sociais e culturais (Gamboa, 2018).

Nessa perspectiva, a pesquisa - ou o ato de fazer pesquisa - configura-se como um dos instrumentos potentes para a consolidação de práticas de ensino e aprendizagens que ampliem a formação (e a atuação) dos professores(as), tal como descrita no parágrafo anterior. Ao adotarem uma postura investigativa, tanto os professores quanto seus formadores, e por expectativa os estudantes, tornam-se autores e coautores de sua própria identidade e a da profissão docente. Ao assumirem essa postura, eles se colocam na direção contrária ao modelo da racionalidade técnica, que enfatiza a repetição, memorização e reprodução de conhecimentos produzidos em outros momentos, lugares e atores.

Ao defendermos que a postura investigativa deve ser adotada por formadores (as), professores(as) e estudantes, não significa, assim como implica Severino (2009, p.1), formar “pesquisadores especializados, como membros de uma equipe de um instituto de pesquisa, mas de praticar à docência e a aprendizagem mediante a uma postura investigativa”. Lembremos, contudo, que no caso da formação inicial, em especial aquela praticada nas universidades, os formadores geralmente são professores com mestrado e doutorado e, por esse motivo, já possuem familiaridade com a pesquisa. Vale salientar, ainda, que a compreensão de ensinar com e pela pesquisa não pode ficar restrita apenas à produção de artigos, por vezes de forma acrítica e descomedida (André, 2008; Demo, 2015).

O que defendemos é uma postura investigativa por parte de quem ensina e de quem aprende, independentemente de onde seja praticado. Isso se justifica porque o ato de pesquisar ou a própria construção do conhecimento não podem ser atividades exclusivas dos atores que ocupam os ambientes universitários, ou seja, deve também fazer parte das atividades desenvolvidas na Educação Básica. Entretanto, ao aventarmos que a escola também seja um espaço de pesquisa e investigação, não podemos desconsiderar as condições de trabalho dos(as) profissionais que lá exercem suas atividades, principalmente nas condições de atuação dos(as) professores(as). Somado a isso, os que atuam na ambiência universitária ou institutos de pesquisa precisam considerá-los como parceiros(as) na produção de conhecimento e não apenas como meros informantes de pesquisa (Demo, 2015; Gamboa, 2018).

A concepção equivocada de uma escola e de professores(as) como “coisas” a serem investigadas resulta em algumas implicações negativas no que diz respeito à produção do conhecimento, assim como em relação à adesão de uma postura investigativa também por parte dos(as) professores(as) da Educação Básica. Como exemplo, é comum ouvirmos nas discussões acadêmicas que as pesquisas produzidas pelos(as) “especialistas” dificilmente adentram os espaços escolares e que, até mesmo, não são lidas nem adotadas para fundamentar e aprimorar as práticas docentes. Outrossim, há os que relatam que os(as) professores(as) da Educação Básica “rejeitam” essas pesquisas ou não querem mais continuar compartilhando suas experiências.

Os relatos mencionados no parágrafo anterior nem sempre são o que acontece de fato. O distanciamento entre a universidade e a escola de Educação Básica é aguçado por práticas de pesquisa, como já relatadas, que consideram, geralmente, o(a) professor(a) da escola como “objeto” de pesquisa e não como sujeito autônomo, partícipe e parceiro no processo de construção de conhecimento. Isso reverbera em uma certa hierarquia entre o papel da universidade e o da escola, em que a primeira constrói conhecimento e a segunda se limita a sua reprodução.

Ainda sobre isso, Charlot (2006, p. 92) observa que o relacionamento que comumente se estabelece entre os professores da educação básica e os pesquisadores que frequentam as escolas é,

muitas vezes, vivido pelos professores como situação de avaliação, numa relação hierárquica: o professor formador pertence à universidade e a universidade despenca nas cabeças a hierarquia do saber. [...]; e qualquer que seja o comportamento do professor da universidade, por mais simpático que seja, o professor [da educação básica] vai sentir-se avaliado, vai sentir uma hierarquia intelectual.

Diante desse cenário, que propaga a dicotomia teoria e prática, assim como da produção e difusão de conhecimento, André (2008) defende a necessidade de um diálogo entre a universidade e a Educação Básica, inclusive na elaboração e execução de um plano de trabalho colaborativo e compartilhado. Ponderamos, contudo, que as condições de trabalho dos(as) professores(as), incluindo o tempo para produção de material intelectual podem interferir diretamente na (des)motivação e na qualidade das atividades desenvolvidas (Pimenta; Anastasiou, 2014).

Com esteio no que foi exposto anteriormente, faz-se necessário o incentivo à produção do conhecimento, tanto durante a formação inicial como na formação continuada e atuação profissional dos docentes na escola. Esta afirmação se justifica pela capacidade de eles poderem atuar e analisar os contextos educacionais de modo a não reproduzir as práticas e os modelos já existentes. Diante de uma postura investigativa, é mais suscetível que os professores e estudantes possam produzir criticamente experiências significativas que promovam aprendizagens de acordo com cada realidade (Severino, 2009).

Destarte, ao considerarmos que professores(as) e estudantes, por intermédio da pesquisa ou de uma postura investigativa, podem questionar, refletir, implementar e propor soluções frente aos desafios do ensino e das aprendizagens, objetivamos, por meio deste texto, analisar produções científicas dos últimos 10 (dez) anos que discutam as contribuições da pesquisa como estratégia de ensino e aprendizagem na formação inicial de professores(as). O estudo, por meio de suas evidências, subsidiará as reflexões e o (re)pensar da forma como pode ser a atuação de professores(as) com e pela pesquisa.

2 PERCURSO METODOLÓGICO

Nesta seção, apresentaremos os caminhos percorridos no mapeamento e problematização das produções científicas que discutem as contribuições da pesquisa como estratégia de ensino e aprendizagem na formação inicial de professores(as). Para tanto, utilizamos o Estado da Questão (EQ) como procedimento de pesquisa. Tal procedimento, de acordo com Nóbrega-Therrien e Therrien (2010, p. 34), “é um modo particular de entender, articular e apresentar determinadas questões mais diretamente ligadas ao tema ora em investigação”. Nessa direção, contribui tanto para a (re)formulação de questões de pesquisa quanto para o (re)direcionamento de procedimentos teórico-metodológicos.

Para viabilizar a seleção das produções científicas, delimitamos as buscas a partir de trabalhos empíricos contendo professores(as), discentes e/ou egressos(as) de cursos - na modalidade presencial - de licenciaturas como público investigado. Elegemos trabalhos escritos no idioma português e que tenham sido publicados entre 2013 e 2023, buscando contemplar as tendências de pensamento dessa última década de pesquisas.

Foram excluídos, dessa seleção, os relatos de experiências, ensaios, revisões sistematizadas de literatura, além de estudos publicados em anais de eventos e aqueles que problematizam o educar com e pela pesquisa em cursos de Educação a Distância (EAD), em programas de incentivo à pesquisa ou à docência, como PRP e PIBIC, e nos componentes de Estágio Curricular Supervisionado. Essa exclusão se justifica na medida em que lançamos mão de estudos empíricos publicados em periódicos com revisões por pares, ou oriundos de cursos de Mestrado ou Doutorado, haja vista o nosso interesse de problematizar a temática a partir de estudos que trouxeram as impressões, inspirações e percepções de quem vive ou viveu ativamente a sala de aula nos cursos presenciais de formação de professores(as), quer seja na qualidade de aluno(a) ou professor(a).

As seleções das produções ocorreram de 25 de dezembro de 2023 a 10 de janeiro de 2024, sendo inicialmente realizada na base de dados da Scientific Electronic Library On-line (SciELO). Em seguida, adentramos os repositórios Portal de Periódicos CAPES CAPES), Google Acadêmico (Google) e Catálogo de Teses e dissertações da CAPES (CTD da CAPES). Neste último, também foram aplicados os filtros: “periódico revisão por pares”, “recurso on-line” e “acesso aberto”.

Com o uso de operadores booleanos AND e OR, formulamos 3 (três) equações, a saber: i) “Produção do conhecimento” AND “Educação pela Pesquisa” OR “Formação Inicial do Professor”, ii) Formação de pesquisadores” OR “Iniciação à Pesquisa” AND “Curso de Licenciatura, iii) Docência AND “Pesquisa e ensino” OR “Formação científica. Destacamos que todos os descritores utilizados nas buscas são reconhecidos pelo Thesaurus Brasileiro da Educação (BRASED), que “[...] é um vocabulário controlado que reúne termos e conceitos relacionados entre si, com base em uma estrutura conceitual previamente estabelecida da área de educação.” (Brasil, 2023, p. 1).

Para a seleção final dos trabalhos, seguimos as respectivas etapas, i) análise por título, ii) análise do resumo, e, finalmente, iii) análise dos trabalhos na íntegra, no intento de selecionar apenas os que contemplavam diretamente o objetivo desta investigação. A seguir, na Tabela 1, apresentamos de maneira detalhada o quantitativo de estudos selecionados e excluídos após cada etapa.

Tabela 1 - Seleção dos trabalhos em cada sítio eletrônico

sítios eletrônicos

Equações (E)

Identificados nos sítios eletrônicos

selecionados após a aplicação dos filtros

Selecionados a partir da leitura dos títulos

Selecionados a partir da leitura dos resumos

Selecionados a partir da leitura na íntegra

SciELO

E1

E2

E3

2 714

418

825

1 560

5

536

24

4

22

2

0

1

2

0

0

Portal de periódicos da CAPES

E1

E2

E3

11638

7.733

19.486

6.226

3.806

9772

26

25

36

1

1

2

1

1

1

Google

Acadêmico

E1

E2

E3

3.830

4.040

16.500

2.810

2.820

15.500

35

43

25

1

5

2

1

5

2

CTD da CAPES

E1

E2

E3

252

1799

840

59

943

376

2

39

9

0

3

2

0

1

1

Total

70075

44413

290

20

15

Fonte: o autor.

Ao todo, foram evidenciados 70.075 estudos, mas, ao aplicarmos os filtros, esse número foi reduzido para 44.413. Em seguida, após a leitura dos títulos, 290 trabalhos foram selecionados para a leitura de seus respectivos resumos, respeitando os critérios de exclusão devidamente já explicitados. A partir dos resumos, 20 trabalhos atenderam os critérios de inclusão e foram selecionados para a leitura na íntegra. Finalmente, ao serem lidos e analisados na íntegra, um total de 15 estudos constituíram a amostra final de trabalhos a serem problematizados neste texto sobre o EQ em tela.

Conforme a Resolução n° 510, de 7 de abril de 2016, que versa sobre os aspectos éticos em pesquisas na área das Ciências Humanas e Sociais, “Pesquisa realizada exclusivamente com textos científicos para revisão da literatura científica” não precisa ser submetida ao sistema CEP/CONEP (Brasil, 2016, p. 2). Essa condição legal vai ao encontro dos procedimentos metodológicos que adotamos nesta investigação, considerando que se configura como um dos métodos de revisão da literatura científica e, neste caso, na condição de EQ.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Organizamos essa seção de resultados e discussões de modo a apresentar e discutir, inicialmente, as dissertações de mestrado e, no segundo momento, os artigos científicos selecionados. Nenhuma tese de doutorado foi selecionada, em razão de não atender aos critérios de inclusão estabelecidos; sendo assim, foram selecionadas 5 (cinco) dissertações de mestrado. Algumas de suas características podem ser consultadas no Quadro 1, como, por exemplo, os autores/as, títulos e Programas de Pós-graduação em que estão vinculados.

Quadro 1 - Autores(as)/ano, Programa de Pós-Graduação (PPG), conceito Qualis CAPES e o título das dissertações de mestrado selecionadas

Autores(as)/

ano

Título

PPG

Conceito CAPES33

Andrade (2021)

A relação entre ensino e pesquisa no curso de licenciatura em Geografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

PPG em Geografia

5

Costa (2020)

O ensino de ciências por investigação na perspectiva da ensinagem: contribuições para a formação inicial de professores

PPG em Ensino das Ciências

4

Celestino (2019)

A pesquisa na formação do professor: limites e possibilidades no curso de Geografia

PPG em Educação

3

Marques (2019)

Prática de pesquisa no ensino de Matemática: influência na formação inicial do professor

PPG em Ensino de Ciências e Educação Matemática

3

Baccin (2018)

A ciência enquanto um tema sociocientífico na formação inicial de professores de Ciências: uma reflexão acerca das implicações e potencialidades

PPG em Educação em Ciências: química da Vida e Saúde (Brasil, 2020)

4

Fonte: o autor.

A dissertação de Andrade (2021) buscou compreender as relações entre ensino e pesquisa na formação inicial de professores(as) de Geografia, assim como as implicações pedagógicas do ato de pesquisar na aprendizagem. Ao aplicar um questionário com 10 (dez) egressos do componente curricular “Pesquisa Aplicada ao Ensino de Geografia”, vinculada ao curso de licenciatura em Geografia da UFPE, evidenciou que as atividades de pesquisa podem contribuir substancialmente nos processos de ensino e aprendizagem, além de proporcionar uma aproximação com as nuances inerentes a realidade educacional.

É sempre oportuno realçar, a respeito do contato dos(as) licenciandos(as) com a realidade escolar, ainda no decorrer da formação inicial, que esse contato oportuniza, por vezes, reflexões sobre o trabalho docente, inclusive no que tange aos desafios pertencentes a cada realidade educacional. Isto posto, é possível assegurar que os componentes curriculares que permitem experiências no contexto real de trabalho, como nas escolas, podem fazer o uso da pesquisa como ferramenta pedagógica, a fim de não apenas facilitar a observação da realidade, mas também a proposição de respostas ou alternativas frente às questões observadas (Ghedin; Oliveira; Almeida, 2015). Desse modo, amplia consideravelmente as oportunidades de formação para a docência.

Costa (2020) objetivou, por sua vez, analisar os impactos do ensino de Ciências por investigação na formação inicial de professores(as). Participaram dessa pesquisa discentes e docentes de um curso de Licenciatura em Ciências Biológicas pertencente a uma IES pública federal. Lançando mão de diferentes ferramentas de coleta de dados, como aplicação de questionário e entrevista, constatou que o ensino por investigação pode auxiliar na superação do paradigma tradicional de ensino, isto é, um paradigma transmissivo, que ainda ocorre em muitas realidades de ensino. Por outro lado, percebeu que, embora os professores(as) participantes reconheçam o papel produtivo do ensino por investigação, infelizmente ainda não implementam de forma sólida em suas práticas de ensino.

Com efeito, apoiar-se no ato de pesquisar pode ser uma estratégia para se distanciar dos modelos considerados tradicionais de ensino, os quais prezam pela mera transmissão e reprodução de conhecimentos (Gamboa, 2018; Medeiros Filho; Farias, 2023). Entretanto, faz-se necessário aprender, inclusive na formação inicial, alguns dos fundamentos teóricos e metodológicos que orientam o ensino com e pela pesquisa, tornando possível, assim, lançar mão da pesquisa como ferramenta de ensino e aprendizagens em quaisquer dos níveis de ensino. Do contrário, continuaremos com práticas descontextualizadas e meramente reprodutoras de conhecimentos.

Celestino (2019), em dissertação, problematizou, com esteio nas narrativas de docentes e egressos de um curso de Geografia de uma universidade pública, o lugar e os limites da pesquisa na formação e atuação profissional. Todos ratificaram a pesquisa como ferramenta potencializadora dos processos de ensino e aprendizagens, considerando um meio imprescindível na produção de novos conhecimentos. Nesse ínterim, o autor realça a necessidade de melhores condições para se desenvolver atividades de pesquisas, especialmente no contexto de atuação dos(as) professores(as) da Educação Básica.

Nessa mesma direção, Marques (2019) discutiu sobre as contribuições da pesquisa na formação de professores(as) de Matemática. Ao entrevistar 8 (oito) docentes de matemática de instituições públicas de ensino, evidenciou que a pesquisa estimula o desenvolvimento de uma postura crítica e questionadora. Em acordo com as ideias de Demo (2015), a pesquisa como ato educativo propõe experiências formativas que estimulam a reflexão e o debate crítico, auxiliando, portanto, estudantes e professores(as) a repensarem sua formação e seus conhecimentos prévios.

A última dissertação selecionada, de autoria de Baccin (2018), problematizou a ciência, especificamente os aspectos sociocientíficos na formação de professores(as) de Ciências Biológicas. Como técnica de geração de dados, utilizou exame documental, diário de campo, aplicação de questionário e entrevista, tendo como participantes discentes e docentes de uma IES pública localizada no Rio Grande Sul. Ao analisar o PPC do curso, identificou que de 58 (cinquenta e oito) componentes curriculares apenas 4 (quatro) sinalizam o trabalho com os fundamentos sociocientíficos, transparecendo, presumidamente, uma fragmentação e descontinuidade das reflexões. Isso se justifica porque tais componentes aparecem dispostos sem uma lógica sequencial aparente na matriz curricular.

Frente a esse cenário, concordamos com Baccin (2018) no que concerne à necessidade de incrementar os fundamentos sociocientíficos em toda a formação e não se restringir a algumas disciplinas que, assim como na realidade investigada, podem receber uma conjuntura descontínua e desarticulada. Esses fundamentos permitem que estudantes e professores(as) observem e analisem a realidade com maior responsabilidade e integralidade. Desse modo, eles podem, inclusive, tornar o ensino e a aprendizagem contextualizados e mais significativos para discentes e docentes por levantarem questões inerentes à vida cotidiana.

Continuando a discussão a partir dos escritos selecionados, no Quadro 2, disposto a seguir, podemos constatar características dos 10 (dez) artigos selecionados, tais como autores(as), títulos e periódicos em que foram publicados. Na sequência, apresentaremos mais particularidades de cada estudo, como o objetivo e os instrumentos de geração de dados, além da problematização dos seus achados e as relações destes com outras evidências assentadas na literatura científica.

Quadro 2 - Autor/es, ano, título, sítio eletrônico, periódico/ISSN, Qualis CAPES

Autores(as)

Título

Sítio eletrônico

Revista/

periódico

Qualis CAPES 2017-2020

Granado e Meghioratti (2021)

Formação acadêmica e as compreensões de natureza da ciência e de investigação científica de alunos de cursos de licenciatura

Google Acadêmico

Góndola, enseñanza y aprendizaje de las ciencias

2346-4712

A3

Felix, Cunha e Silva (2020)

Pesquisa na formação docente: apreciações de graduandos e professores do curso de geografia de uma Universidade Estadual do Ceará

Portal de Periódico da CAPES

Geografia

1983-8700

A2

Coelho Filho, Boas, Oliveira e Costa (2019)

Pesquisa científica na formação inicial de professores num curso de licenciatura em uma instituição de ensino superior

Google Acadêmico

Brazilian Journal of Development

2525-8761

C

Gonçalves e Síveres (2020)

A relevância da pesquisa na formação inicial de professores

Google Acadêmico

Revista Educativa

1983-7771

A4

Lucindo e Araújo (2018)

O papel da pesquisa na formação inicial dos pedagogos:

Desafios e avanços nas discussões atuais

Portal de Periódico da CAPES

Práxis educacional

2178-2679

A2

Grandi e Volpato (2018)

A relação entre ensino e pesquisa na percepção de professores da Língua Inglesa no ensino superior

SciELO

Educação: teoria e prática

1981-8106

A2

Oliveira e Chapani (2017)

A pesquisa na formação em exercício de professores de ciências e biologia

SciELO

ENSAIO: Pesquisa em Educação em Ciências

1983-2117

A1

Ciríaco e Camelo (2016)

A formação de futuros professores pela pesquisa: quais desafios?

Google Acadêmico

Ensino & Pesquisa

2359-4381

A3

Nova (2016)

O currículo e a relação entre ensino e pesquisa na formação inicial de professores: tensões para a docência universitária

Google Acadêmico

Espaço do Currículo

1983-1579

A3

Ribeiro, Ortega e Darsie (2013)

A prática da pesquisa na formação docente: concepções de professores de licenciatura em matemática de uma universidade no contexto da Amazônia brasileira

Google Acadêmico

REAMEC - Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemática

2318-6674

A4

Fonte: o autor.

Seguindo a ordem de exposição dos artigos no Quadro 2, iniciaremos com o estudo de Granado e Meghioratti (2021), que investigou as compreensões de licenciandos sobre a natureza da Ciência e de Investigação Científica e como essas aprendizagens ocorrem nos cursos de formação de professores(as). Ao aplicarem questionário e entrevista com licenciandos(as) de uma universidade pública do Oeste do Paraná – Brasil, evidenciaram, dentre outros resultados, que a percepção sobre “fazer ciência” se limita aos métodos de experimentação e comparação. Ou seja, vai ao encontro de uma visão de ciência fundamentalmente empírica.

Alguns(as) licenciandos(as) também relataram que o primeiro contato com a ciência se deu na formação inicial. As autoras enfatizam a imprescindibilidade do compromisso dos cursos de formação de professores(as) no que tange ao debate e ao ensino que promovam formação e investigação científica. Isso se justifica porque estudar e compreender os métodos, as metodologias e as técnicas de pesquisa é um movimento necessário, dado que pode ampliar a forma de enxergar e responder diferentes problemas inerentes à realidade educacional.

Todavia, o ensino e estudo com e pela pesquisa não podem se limitar ao ensino de técnicas tradicionalmente aceitas pela comunidade científica. Em outros termos, eles são conhecimentos que precisam ser explorados na formação inicial de professores(as), mas que não podem ser dissociados dos contextos socioculturais viventes em cada realidade. Outrossim, nem mesmo devem ficar sob incumbência apenas de alguns componentes curriculares (Gamboa, 2018; Severino, 2009).

Na sequência, Granado e Meghioratti (2021) objetivaram compreender as concepções e o papel da “pesquisa” na formação de professores(as) de geografia. Para alcançar tal fim, recorreram aos docentes e discentes do 5° e 8° semestre, a partir da aplicação de um formulário. Como um de seus resultados, parte dos discentes percebe o ato de fazer pesquisa como atividade restrita, por exemplo, aos bolsistas e coordenadores integrantes dos programas de iniciação científica. Já os docentes, estes compreendem o ato de pesquisa como atividade fundante na formação de professores(as), sendo uma ferramenta catalizadora da autonomia no processo de produção e disseminação do conhecimento.

Pensar a pesquisa como atividade desenvolvida somente nos programas de iniciação científica ou similar é reduzir o papel e a identidade do(a) professor(a) como agente ativo na produção e partilha de conhecimentos. Logo, faz-se necessário perceber e conceber todos(as) os(as) educandos(as) e professores(as) como protagonistas que também podem lançar mão da pesquisa para catalisar seus processos de ensino e aprendizagens. Este não deveria ser um ato destinado apenas aos estudantes bolsistas e professores(as) coordenadores(as) de programas institucionais de iniciação à pesquisa, por exemplo.

Por sua vez, Coelho Filho, Boas, Oliveira e Costa (2019) almejaram compreender as contribuições da pesquisa na formação inicial de professores(as) de um curso de Pedagogia. Ao responderem um questionário, os(as) discentes defendem o ato de pesquisar como atividade fundante na formação inicial, associando a pesquisa a atividades sistemáticas e rigorosas.

Ao associarem o ato de pesquisar a uma atividade sistemática e rigorosa, eles podem, de certo modo, legitimá-lo como atividade intencional e responsável na construção de argumentações. Por outro lado, podem distanciar de um movimento do educar pela pesquisa ou, assim como afirma Demo (2015), a pesquisa como ato educativo. Esta, que não necessariamente parte de processos sistemáticos e rigoroso, também é uma atividade responsável e ética, que exige uma postura investigativa crítica, criativa, questionadora e propositiva.

Gonçalves e Síveres (2020) investigaram a percepção docente acerca da importância da pesquisa para a construção do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e seus impactos na atuação profissional. Por meio de questionário, contaram com a participação de 35 (trinta e cinco) licenciandos(as) em Pedagogia. Os estudantes compreendem “a pesquisa como busca, criação e processo de emancipação do estudante e também do professor, uma vez que possibilita a aquisição de novos conhecimentos” (p. 21). Vale destacar que todos afirmaram a pesquisa como atividade imprescindível na formação e atuação profissional.

Nessa mesma perspectiva, Lucindo e Araújo (2018) problematizaram o lugar da pesquisa na formação inicial de Pedagogos(as). Quanto aos aspectos metodológicos, os pesquisadores adotaram, para além de exame documental, a aplicação de questionário e entrevista com profissionais que lecionam em escolas da rede pública localizadas em um dos cinco municípios pertencentes à Superintendência Regional de Ensino de Ouro Preto (Acaiaca, Diogo de Vasconcelos, Itabirito, Mariana e Ouro Preto). A maior parte dos(as) professores(as) revelou não ter tido contato com a prática de pesquisa em sua formação inicial. Segundo eles, as experiências ficaram restritas aos componentes curriculares de TCC. Por outro lado, reconhecem o papel da pesquisa como elemento inerente à atuação docente.

As atividades de pesquisa, em diferentes contextos de formação inicial, ainda ficam concentradas nos componentes curriculares de TCC. É comum a divisão desses componentes em dois momentos: o primeiro para desenvolver o projeto de pesquisa e o segundo destinado à execução do projeto. Tais componentes, quaisquer que sejam suas nomenclaturas (TCC I, TCC II, projeto de pesquisa, monografia, por exemplo) ocorrem, por vezes, apenas ao final do curso. Como consequência, isso tem aumentado o desafio dos educandos pelo fato de que pouco foram os estímulos para desenvolver pesquisas, assim como para adotar uma postura crítica e questionadora ao longo do curso (Ghedin; Oliveira; Almeida, 2015).

Grandi e Volpato (2018) discutem, em seu estudo, sobre a relação ensino e pesquisa no curso de Letras-Inglês de uma universidade comunitária de Santa Catarina. Ao entrevistarem 3 (três) docentes, extraíram, como um de seus resultados, que há a relação ensino e pesquisa, entretanto, mediante processos elementares ou incipientes. Os relatos também sinalizam que os(as) discentes, ao invés de participarem ativamente do processo de construção de conhecimento, adotam uma postura passiva às produções científicas dos(as) professores(as).

As oportunidades de participação ativa dos licenciandos na construção de conhecimentos, para além dos componentes curriculares de TCC, reduzem-se, por vezes, às bolsas de iniciação científica ou similar, divulgada por meio de editais. Embora as diferentes políticas de bolsas tenham surtido efeito no desempenho acadêmico, assim como reportam os estudos de Almeida, Sousa, Braga e Pontes Junior (2021) e Medeiros Filho (2019), não há bolsas para todos os estudantes interessados. Por conseguinte, isso acaba, equivocadamente, passando uma imagem de que a pesquisa é uma atividade exclusiva dos estudantes de iniciação científica e seus respectivos coordenadores, assim como evidenciado pelo texto de Granado e Meghioratti (2021).

Contando com a participação de professoras(es) da rede pública, o estudo de Oliveira e Chapani (2017) visou compreender, por meio de exame documental e entrevistas, as concepções de pesquisa e quais as práticas de pesquisa vivenciadas pelos egressos de um curso de licenciatura em Biologia da rede pública da Bahia. Em consonância com o estudo anterior, de Grandi e Volpato (2018), os egressos partícipes do estudo reportaram o pouco contato com a pesquisa ao longo de sua formação inicial. Eles associam o ato de pesquisar à “[...] atualização, trabalho avaliativo, atividade rigorosa e prática reflexiva, com preponderância, porém, de concepções bastante simples, que envolvem tão somente a busca de conhecimento pronto e não a sua produção própria” (p.16). Concepções como essas podem maximizar os desafios no processo de elaboração de pesquisas, inclusive do TCC, que exige conhecimentos mínimos sobre métodos e técnicas de pesquisa e, sobretudo, uma argumentação crítica e fundamentada.

Em se tratando de TCC, Ciríaco e Camelo (2016) investigam as nuances que circundam o processo de construção do TCC por parte de licenciandos em Pedagogia vinculado a uma instituição pública federal da região centro-oeste. As respostas obtidas por meio de questionário indicam que os licenciandos percebem a pesquisa como imprescindível nos processos de formação e atuação profissional. Para eles, o ato de escrever é uma das atividades mais desafiadoras na elaboração de uma pesquisa.

Um dos maiores desafios na elaboração de pesquisa, como é o caso do TCC, diz respeito à capacidade do educando expressar suas ideias por meio da escrita. Em tese, por mais que seja um exercício complexo, escrever não deveria ser uma das maiores dificuldades na condução de uma pesquisa – assim como evidenciaram Ciríaco e Camelo (2016) em relação à construção do TCC – pois o ato da escrita é estimulado, legalmente (Brasil, 1996), em toda a Educação Básica e no transcorrer da formação inicial. Esse estímulo ocorre, por exemplo, por meio da elaboração de resumos expandidos, resenhas, relatórios de estágios, dentre outras atividades requeridas nos mais diversos componentes curriculares de cada curso, especialmente por parte dos professores(as) que buscam assegurar a relação ensino-pesquisa e que adotam uma postura investigativa.

No tocante ao ensino com e pela pesquisa, Nova (2016) discute a relação pesquisa-ensino na formação inicial de professores(as), a partir de entrevistas com 8 (oito) docentes de um curso de licenciatura. Entre os achados, elucidamos a cisão, por vezes, da unidade ensino-pesquisa, ao enxergarem o “ensino” como “prática” e reprodução de conhecimentos e a “pesquisa” como teoria e construção de conhecimentos. Essa visão dicotômica é, infelizmente, um dos fatores que alimentam a percepção errônea de que a pesquisa é atividade exclusiva dos programas de pós-graduação stricto sensu. Por conseguinte, a graduação, e mais ainda a Educação Básica, são vistas apenas como locais de reprodução de conhecimentos.

Ribeiro, Ortega e Darsie (2013) perquiriram sobre a prática da pesquisa na licenciatura, a partir das narrativas de 6 (seis) docentes de um curso de Matemática vinculado à Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Além de colocarem a pesquisa como potencializadora do desenvolvimento profissional e humano, os(as) participantes reconhecem a importância de ensinar e aprender matemática a partir do ensino com e pela pesquisa. No entanto, eles reportam que, para que esse processo ocorra a contento, faz-se necessário um maior investimento, por parte da IES, em estrutura física e planejamento.

Com efeito, realizar pesquisa exige investimentos, tanto em relação à formação acadêmica-profissional quanto aos aspectos de infraestrutura, instalações físicas e outras condições de trabalho. Nesse sentido, é cabível a preocupação com a provisão de um investimento substancial e que vise melhorias nas condições de trabalho docente frente ao fazer e ao uso da pesquisa no processo de ensino-aprendizagem. Com a presença dessas condições, talvez seja possível ampliar as possiblidades de adesão a uma atuação profissional mediante uma postura investigativa.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo discutiu as contribuições da pesquisa como estratégia de ensino e aprendizagem na formação inicial de professores(as), a partir de produções científicas produzidas nos últimos 10 (dez) anos. Partimos da premissa que a pesquisa como ato ou princípio educativo deve fazer parte das práticas docentes em todos os níveis de ensino. Não podendo ser diferente, consideramos a pesquisa como um princípio científico que também deve integrar a formação e atuação profissional docente.

Os participantes dos trabalhos selecionados, tanto estudantes quanto professores(as), defendem a pesquisa como instrumento potente na efetivação do ensino e das aprendizagens. Todavia, é possível asseverar que, para se configurar uma atividade permanente na formação e atuação docente, quer seja na Educação Básica ou Ensino Superior, precisamos concebê-la, também, como campo de estudo e exploração ao longo da formação, sem nos limitar às disciplinas de TCC ou similares. Nesse ensejo, não se pode restringir o ensino e as aprendizagens exclusivamente a respeito de métodos, metodologias e técnicas de pesquisa.

Ao contrário disso, é preciso estimular processos que reverberem no pensamento e na reflexão sobre as diferentes nuances que circundam o trabalho docente. De igual maneira, necessitamos encontrar, por meio da pesquisa, caminhos razoáveis de atenuá-las, consequentemente, contribuindo como agente ativo tanto nas suas aprendizagens quanto na melhoria do sistema educacional. Ao defendermos a cotidianização da pesquisa na formação e atuação de professores(as), não poderíamos deixar de colocar em relevo a urgente necessidade de propor melhores instalações físicas, além de recursos financeiros, como ampliação em massa de oferta de bolsas.

Somado a isso, a oferta de formação continuada em pesquisa e o diálogo entre universidade e escola podem impulsionar a prática de atividades investigativas nas salas de aulas do curso de formação. De igual modo, podem contribuir com a oportunização para estar em um ambiente real de trabalho, como escolas e outros possíveis campos de atuação do(a) licenciado(a). Esperamos, pois, que as evidências e problematizações levantadas neste EQ possam consubstanciar as discussões, decisões e (re)organizações na matriz curricular de cursos de formação de professores(as) e do fazer pedagógico nas escolas.

Estamos sugerindo, para tanto, a inserção ampla de atividades de pesquisas que estimulem o pensamento, a criatividade e a argumentação crítica, autônoma e fundamentada como base de formação docente. A fim de continuar os debates e as proposições aqui levantados, sugerimos ainda novas pesquisas que se proponham a discutir a relação existente entre o ensino “com” e “pela” a pesquisa na formação inicial de professores(as), e suas implicações na prática docente ao ingressar no mundo do trabalho, inclusive na adesão de uma postura crítica, criativa e questionadora.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Grasiany Sousa de; SOUSA, Leandro Araujo de; BRAGA, Adriana Eufrásio; PONTES JUNIOR, José Airton de Freitas. Fatores associados ao rendimento acadêmico na formação inicial de professores. Revista de Estudios e Investigación en Psicología y Educación, v. 8, n. 1, p. 94-110, 2021. DOI: https://doi.org/10.17979/reipe.2021.8.1.7546.

ANDRADE, Valdemira Pereira Canêjo de. A relação entre ensino e pesquisa no curso de Licenciatura em Geografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). 2021. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2021. 182 f. Disponível em: https://attena.ufpe.br/handle/123456789/40782. Acesso em: 26 jan. 2024.

ANDRÉ, Marli Eliza Dalmazo Afonso de. (org.). O papel da pesquisa na formação e na prática dos professores. 8. ed. Campinas, SP: Papirus, 2008.

BACCIN, Bruna Ambros. A ciência enquanto um tema sociocientífico na formação inicial de professores de Ciências: uma reflexão acerca das implicações e potencialidades 2018. 77 f. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Ciências Naturais e Exatas, Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde, RS, 2018. Disponível em: https://repositorio.ufsm.br/handle/1/14912. Acesso em: 26 jan. 2024.

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução nº 2/2019, de 20 de dezembro de 2019. Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores para a Educação Básica e institui a Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC – Formação). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, seção 1, n. 28, p. 115-119, 10 de fev. de 2020. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/dezembro-2019-pdf/135951-rcp002-19/. Acesso em: 15 jan. 2023.

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP n. 02/2015, de 1º de julho de 2015. Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, seção 1, n. 124, p. 8-12, 02 de julho de 2015. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/agosto-2017-pdf/70431-res-cne-cp-002-03072015-pdf/file. Acesso em: 15 jun. 2023.

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Estudos educacionais: Thesaurus Brasileiro da Educação. 2023. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/assuntos/noticias/estudos-educacionais/disponivel-documento-do-thesaurus-brasileiro-da-educacao. Acesso em: 17 jan. 2024.

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 23 de dezembro de 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 25 jan. 2024.

BRASIL. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 24 maio. Seção 1, 44-46, 2016. Disponível em: https://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2016/Reso510.pdf. Acesso em: 25 jan. 2024.

BRASIL. Portaria nº 543, de 16 de junho de 2020. Reconhece cursos de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado), acadêmicos e profissionais, recomendados pelo Conselho Superior - CS, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Capes, na Avaliação Quadrienal do ano de 2017. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, p. 58, 17 jun. 2020.

CELESTINO, Edilson Junior. A pesquisa na formação do professor: limites e possibilidades no Curso de Geografia. 2019. 127 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Federal de Viçosa, Viçosa. 2019. Disponível em: https://locus.ufv.br//handle/123456789/27507. Acesso em: 26 jan. 2024.

CHARLOT, Bernard. Formação de professores: a pesquisa e a política educacional. In. PIMENTA, Selma Garrido; GHEDIN, Evandro. (org.). Professor reflexivo no Brasil: gênese e crítica de um conceito. 4. ed. São Paulo: Cortez, p. 89-108, 2006.

CIRÍACO, Klinger Teodoro; CAMELO, Valéria Nantes. A formação de futuros professores pela pesquisa: quais desafios? Revista Ensino & Pesquisa, União da Vitória. v.14, n.02, p. 30-57, jul/dez. 2016. Disponível em: https://periodicos.unespar.edu.br/index.php/ensinoepesquisa/article/view/771. Acesso em: 25 jan. 2023.

COELHO FILHO, Mateus de Souza; BOAS, Terezinha de Jesus Reis Vilas; OLIVEIRA, Lúcia Helena Soares de; COSTA, Rúbia Darivanda da Silva. Pesquisa científica na formação inicial de professores num curso de licenciatura em uma instituição de ensino superior. Revista Brasileira de Desenvolvimento. v. 5, n. 2, p. 1746–1761, 2019. DOI: https://doi.org/10.34117/bjdv5n2-1172.

COSTA, David Gadelha. O ensino de ciências por investigação na perspectiva da ensinagem: contribuições para a formação inicial de professores. 2020. 153 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Ensino das Ciências) - Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife. Disponível em: http://www.tede2.ufrpe.br:8080/tede2/handle/tede2/9210. Acesso em: 26 jan. 2024.

DEMO, Pedro. Educar pela Pesquisa. 10. ed. Campinas: Autores Associados, 2015.

FELIX, Pedro Wallas Soares de Araújo; CUNHA, Maria Soares da; SILVA, Mirelle Oliveira. Pesquisa na formação docente: apreciações de graduandos e professores do curso de geografia de uma universidade estadual do Ceará. Geografia, Rio Claro. v. 45, n. 2, p. 313-340, 2020. DOI: https://doi.org/10.5016/geografia.v45i2.15277.

FUNDAÇÃO COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR. CAPES. Portal dos Periódicos. Disponível em: https://www-periodicos-capes-gov-br.ezl.periodicos.capes.gov.br/index.php?

FUNDAÇÃO COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR. CAPES. Catálogo de Teses e dissertações da CAPES. Disponível em: https://catalogodeteses.capes.gov.br/catalogo-teses/#!/.

GAMBOA, Silvio Sánchez. Pesquisa em Educação: métodos e epistemologias. 3. ed. rev., atual. e ampl. [recurso eletrônico]. Chapecó, SC: Argos, 2018.

GHEDIN, Evandro; OLIVEIRA, Elisangela; ALMEIDA, Whasgthon. Estágio com pesquisa. São Paulo: Cortez, 2015.

GONÇALVES, Maria Célia da Silva; SÍVERES, Luiz. A relevância da pesquisa na Formação Inicial de Professores. Revista Educativa - Revista de Educação, Goiânia, v. 22, p. e7250, mar. 2020. DOI: http://dx.doi.org/10.18224/educ.v22i1.7250.

GOOGLE. Google Acadêmico. Disponível em: https://scholar.google.com.br/?hl=pt.

GRANADO, Leticia Manica; MEGHIORATTI, Fernanda Aparecida. Formação acadêmica e as compreensões de natureza da ciência e de investigação científica de alunos de cursos de licenciatura. Revista Góndola, Enseñanza y Aprendizaje de las Ciencias. v. 16, n.1, p. 46-67, 2021. DOI: https://doi.org/10.14483/23464712.15425.

GRANDI, Caroline Almeida da Silva; VOLPATO, Gildo. A relação entre ensino e pesquisa na percepção de professores da Língua Inglesa no ensino superior. Educ. Teoria Prática, Rio Claro, v. 28, n. 58, p. 204-219, maio/ago. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.18675/1981-8106.vol28.n58.p204-219.

LUCINDO, Nilzilene Imaculada; ARAÚJO, Regina Magna Bonifácio de. O papel da pesquisa na formação inicial dos pedagogos: desafios e avanços nas discussões atuais. Práxis Educacional, Vitória da Conquista, v.14, n. 28, p. 151-172, abr./jun. 2018. DOI: 10.22481/praxis.v14i28.3465.

MARQUES, Jonatas de Sousa. Prática de pesquisa no ensino de Matemática: influência na formação inicial do professor. 2019. 159 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Educação Matemática - PPGECEM) - Universidade Estadual da Paraíba, Campina Grande, 2019. Disponível em: http://tede.bc.uepb.edu.br/jspui/handle/tede/3609. Acesso em: 26 jan. 2024.

MEDEIROS FILHO, Antonio Evanildo Cardoso de; FARIAS, Isabel Maria Sabino. Delimitação e escrita do objeto de estudo na pesquisa científica em educação. Revista Triângulo, Uberaba, v. 16, n. 3, p. 151–168, Set./.Dez. 2023. DOI: https://doi.org/10.18554/rt.v16i3.7131.

MEDEIROS FILHO, Antonio Evanildo Cardoso de. Percepção discente e desempenho dos estudantes dos cursos de licenciatura em Educação Física no Enade 2017. 2019. 126 f. Dissertação (Mestrado Acadêmico ou Profissional em 2019) - Universidade Estadual do Ceará, 2019. Disponível em: http://siduece.uece.br/siduece/trabalhoAcademicoPublico.jsf?id=84781. Acesso em: 26 jan. 2024.

NÓBREGA-THERRIEN, Silvia Maria; THERRIEN, Jacques. O estado da questão: aportes teóricos-metodológicos e relatos de sua produção em trabalhos científicos In: FARIAS, Isabel Maria Sabino; NUNES, João Batista Carvalho; NÓBREGA THERRIEN, Silvia Maria. (org.). Pesquisa científica para iniciantes: caminhando no labirinto. Fortaleza: EdUECE, p. 33-51, 2010. (Coleção Métodos de Pesquisa).

NOVA, Carla Carolina. O currículo e a relação entre ensino e pesquisa na formação inicial de professores: tensões para a docência universitária. Revista Espaço do Currículo, v.8, n.3, p. 345-355, 2016. DOI: https://doi.org/10.15687/rec.v8i3.27461.

OLIVEIRA, Dekarla Xisto; CHAPANI, Daisi Teresinha. A pesquisa na formação em exercício de professores de ciências e biologia. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências, Belo Horizonte. v. 19, e2740, p. 1-19, 2017. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1983-21172017190107.

PIMENTA, Selma Garrido; ANASTASIOU, Léa das Graças Camargos. Docência no ensino superior. São Paulo: Cortez, 2014.

RIBEIRO, Emerson da Silva; ORTEGA, Jaquelyne Macedo; DARSIE, Marta Maria Pontin. A prática da pesquisa na formação docente: concepções de professores de licenciatura em Matemática de uma universidade no contexto da Amazônia brasileira. REAMEC - Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemática, Cuiabá, v. 1, n. 1, p. 22–43, 2013. DOI: 10.26571/2318-6674.a2013.v1.n1.p22-43.i5284.

SEVERINO, Antonio Joaquim. Docência universitária: a pesquisa como princípio pedagógico. Revista @mbienteeducação, São Paulo, v. 2, n. 1, p. 120–128, jan./jul. 2009. DOI: https://doi.org/10.26843/v2.n1.2009.540.p120%20-%20128.

SCIENTIFIC ELECTRONIC LIBRARY ONLINE. SCIELO. Lista de Periódicos. Disponível em: https://www.scielo.br/.

Endereços para correspondência:

Antonio Evanildo Cardoso de Medeiros Filho - Av. Dr. Silas Munguba, 1700, Campus do Itaperi, Fortaleza, CE. antonio.evanildo@uece.br.

Messias Holanda Dieb - Av. Dr. Silas Munguba, 1700, Campus do Itaperi, Fortaleza, CE. dieb@ufc.br.


  1. 1 1 Doutor e Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual do Ceará; Estágio pós-doutoramento na Universidade Federal do Ceará.

  2. 2 2 Doutor e Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Ceará; Estágio Pós-Doutoral em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe.

  3. 3 3 Ministério da Educação. Serviços. Disponível em:

    chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/http://portal.mec.gov.br/docman/

    setembro-2018-pdf/97581-pces487-18/file.