A RELAÇÃO ENTRE A DÍVIDA PÚBLICA E O DESENVOLVIMENTO SOCIOECONÔMICO DOS MUNICÍPIOS PARANAENSES: EVIDÊNCIAS PARA O PERÍODO DE 2002 A 2010
Maiara de Fátima Lazarin*
Gilmar Ribeiro de Mello**
Fernanda Mendes Bezerra***
Resumo
Este artigo analisa a relação entre a dívida pública e os investimentos municipais, nas diversas funções do Governo, e a relação entre a dívida pública e o desenvol- vimento econômico dos municípios paranaenses, por intermédio do indicador que representa a relação entre a Dívida Consolidada Líquida e a Receita Corrente Líquida (DCL/RCL) e o Índice Ipardes de Desenvolvimento Municipal (IPDM), para os anos de 2002 a 2010. Para atingir tal fim, foram construídos dois modelos econométricos,
*Mestranda em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Maringá; maiara_lazarin@ hotmail.com
**Doutor e Mestre em Ciências Contábeis pela Universidade Federal de São Paulo; Professor Adjunto do Centro de Ciências Sociais Aplicadas e do Mestrado em Gestão e Desenvolvimento Regional da Universidade Estadual do Oeste do Paraná de Francisco Beltrão; gilmarribeirodemello@gmail.com
***Doutora e Mestre em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco; Professora do Programa de Mestrado Gestão e Desenvolvimento Regional na Universidade Estadual do Oeste do Paraná de Francisco Beltrão; Rua Maringá, 1200, Vila Nova,
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1 INTRODUÇÃO
No decorrer do século XX, as funções do Governo sofreram profundas modificações. Esse passou a se envolver fortemente na área Financeira, de Crédi- to, de Controle de Preços e na prestação de serviços públicos básicos relacionados à saúde, educação, transporte, saneamento, segurança, habitação, entre outros, buscando melhorar a qualidade de vida da população (REZENDE, 2001).
Os recursos utilizados para realizar tais investimentos são provenien- tes dos impostos arrecadados, ou seja, uma fonte limitada que deve ser utilizada de forma eficiente. Entretanto, muitas vezes, a arrecadação não é suficiente para cobrir os gastos, e com isso, o Estado acaba se endividando.
Para Costa (2009), o endividamento público é uma ferramenta de extre- ma importância para a provisão dos bens públicos à sociedade, o qual é realizado por meio das políticas públicas. Mas, para atingir tal fim, é necessário que os governantes adotem uma política fiscal sustentável.
Menezes (2005) complementa que os investimentos em infraestrutura realizados pelo setor público se constituem em uma importante variável explica- tiva das diferenças de crescimento econômico entre os países, mas sozinhos não são suficientes para propiciar um processo de desenvolvimento.
A necessidade de se obter maior eficiência e maior impacto dos gastos públicos tem propiciado o desenvolvimento e o aprimoramento nos instrumentos e técnicas para a tomada de decisão, bem como o surgimento de diversos estudos e pesquisas que investigam a eficiência quanto à utilização dos recursos e o con- sequente ganho para a sociedade.
Nesse sentido, este trabalho analisa a relação entre a dívida pública e os investimentos municipais, nas diversas funções do Governo, nos municípios paranaenses, além de verificar a relação existente entre a dívida pública e o de- senvolvimento econômico.
O trabalho está organizado em quatro seções, além desta introdução. A próxima seção apresenta a revisão da literatura, seguida pelas seções de procedi- mentos metodológicos, resultados e discussões e, por fim, as considerações finais do estudo.
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2 REVISÃO DA LITERATURA
2.1 DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO
Existem muitas definições para o desenvolvimento econômico, porém, não há uma universalmente aceita. Muitos teóricos associam o desenvolvimento econômico ao crescimento econômico, embora este não seja condição suficiente para aquele.
Conforme Teixeira (2005), o desenvolvimento econômico é um pro- cesso cuja propagação e evolução produz resultados distintos em cada área geo- gráfica. Em princípio, o desenvolvimento de uma região pode ser visto como o processo de crescimento de sua produção total por habitante, acompanhado de mudanças básicas na estrutura de sua economia. Em síntese, o objetivo do de- senvolvimento econômico é a melhoria do nível de vida e de
Segundo Veiga (2001), nos países considerados desenvolvidos, as pes- soas têm muito mais chances e opções do que os habitantes do resto do mundo. Então, o desenvolvimento corresponde à ampliação das possibilidades de escolha, principalmente àquelas que dependem de fatores socioculturais como saúde, edu- cação, comunicação, direitos e liberdade.
Para Menezes (2005), a existência de infraestrutura eficiente é funda- mental para o desenvolvimento econômico sustentável. Os investimentos em capi- tal físico realizados pelo setor público
O sistema financeiro apresenta considerável importância no processo de desenvolvimento econômico. No entanto, tanto a eficácia quanto o uso efi- ciente das finanças nunca devem ser considerados uma condição suficiente para o crescimento ou desenvolvimento econômico, mas um elemento a mais dentro do rol de outras necessidades. Portanto,
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ro, com outras circunstâncias, contribui para o desenvolvimento ou crescimento da economia (TEIXEIRA, 2005).
Quanto ao aspecto da funcionalidade da estrutura financeira para o crescimento econômico, é conveniente observar que as atividades de intermedia- ção financeira dependem da ocorrência e da magnitude dos superávits e déficits financeiros gerados na atuação dos agentes econômicos. Assim, sem a ocorrência de superávit e déficit na economia, não existiriam instrumentos e, tampouco, intermediários financeiros (TEIXEIRA, 2005, p. 17).
Assim, a estrutura financeira tem importância para o crescimento eco- nômico à medida que atende aos requisitos específicos dos agentes econômicos credores e devedores, além da possibilidade de conferir dinamismo à geração e transferências dos superávits e déficits financeiros, contribuindo, assim, para ace- lerar o crescimento econômico (TEIXEIRA, 2005, p. 17).
No entanto, do ponto de vista da evidência histórica, não há uma con- clusão consensual sobre a relação entre desenvolvimento econômico e desenvol- vimento financeiro. Há um imenso grau de dificuldade referida a essa conclusão, mas é certo que o crescimento ou o desenvolvimento econômico é influenciado por uma variedade de diferentes fatores e circunstâncias, entre os quais o desen- volvimento financeiro se reveste em mais um (TEIXEIRA, 2005, p. 19).
Godoi (2007) aborda o excepcional desempenho da Irlanda entre 1980 e 2005 e verifica que ele é resultante da implantação eficaz de uma estratégia nacio- nal de desenvolvimento, ou seja, a partir de um objetivo a ser atingido pela nação,
2.1.1 Indicadores de desenvolvimento econômico
Os indicadores de desenvolvimento socioeconômico são índices que expressam a qualidade de vida da população em determinado intervalo de tem- po. Por meio de tais indicadores, o Governo pode melhorar a gestão pública dos
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recursos e direcionar os investimentos de forma mais eficiente, além de desenvol- ver a previsão do comportamento de uma economia.
Os indicadores de desenvolvimento socioeconômico são utilizados fre- quentemente em trabalhos, como o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM), o Índice Ipardes de Desenvolvimento Municipal (IPDM) e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
O Índice Ipardes de Desenvolvimento Municipal (IPDM) foi criado para acompanhar a situação dos municípios paranaenses. Para a construção do Índice são consideradas três áreas de desenvolvimento econômico e social, a sa- ber: emprego, renda e produção agropecuária; educação; e saúde. Cada área é responsável por 33,33% (um terço) do índice final. Dessa forma,
O índice varia entre 0 e 1; quanto mais próximo de 1, maior será o nível de desempenho municipal. De acordo com o valor do índice dos municípios, eles foram divididos em quatro grupos: baixo (de 0,0 a 0,4); médio baixo (de 0,4 a 0,6); médio (de 0,6 a 0,8); e alto (de 0,8 a 1).
2.2 FINANÇAS PÚBLICAS NO PARANÁ
No período compreendido entre 1984 e 1986, a dívida estadual man-
Entre 1986 e 1995, o Estado do Paraná apresentou um padrão de finan- ças públicas com pouca dependência de recursos de transferências federais, com razoável capacidade de financiar suas políticas públicas com receitas próprias. Ao mesmo tempo, instituições e aparelhos públicos, empresas públicas e da ad- ministração indireta evoluíram ao longo do tempo, tornando a oferta de serviços públicos mais eficaz (CASTRO, 2005, p. 225).
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A partir de 1995,
Para Castro (2005, p. 225) “A evolução e o comportamento da dívida pública paranaense entre 1984 e 2002 são resultado de variáveis de âmbito nacio- nal e, também, de escolhas políticas que direcionaram a gestão fiscal e financei- ra estadual.” No decorrer da década de 1980 até 1995, o endividamento público estadual pôde ser controlado, apesar de ter passado por momentos de trajetória crescente. Durante a era do Plano Real, a dívida pública estadual cresceu signifi- cativamente e ultrapassou o patamar de 14 bilhões de reais.
Segundo Terra (2005), no período compreendido entre 1996 e 2000, o Paraná acumulou déficits públicos que chegaram a contribuir com 12,23% do total do resultado primário negativo do total dos estados brasileiros entre 1998 e 2000, e em 1999 alcançou 76,75%. Essa tendência foi revertida em 2000, quando o Estado apresentou superávit primário de R$ 420,6 milhões,
O endividamento público paranaense apresentou períodos de cresci- mento e de decrescimento do total da dívida líquida. Entre 1999 e 2001, o mon- tante do endividamento paranaense elevou 94%, saindo de R$ 5,7 bilhões para R$ 11,1 bilhões. Já em 2001, reduziu para R$ 7,6 bilhões, atrelado ao início dos superávits primários nas contas públicas paranaenses e ao término do processo de federalização das dívidas dos estados (CASTRO, 2005, p. 13).
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Em 2002, associada ao processo de eleição presidencial e à forte desva- lorização cambial, há uma elevação no endividamento. Em 2003, dada a valoriza- ção cambial e o constante aumento no superávit primário, ocorre uma redução. No entanto, a dívida líquida total do Paraná passa a ser crescente no final de 2004,
Todavia, as contas públicas paranaenses começaram a melhorar por meio das seguintes medidas: renegociação das dívidas dos Estados em 1995; maiores transferências da União; Lei de Responsabilidade Fiscal e elevação da receita tributária (LOURENÇO, 2005).
Tais fatores proporcionaram ao Paraná a quinta posição no ranking na- cional de geração de renda em 2003 e a contribuição de 6,4% no PIB, ficando atrás de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Além de ser o quinto estado mais industrializado do país, a contribuição no Valor da Transfor- mação Industrial (VTI) passou de 5,3%, em 1996, para 6,8%, em 2003. Em 2004, o estado ocupava a quarta posição dos estados exportadores, sendo responsável por 9,7% das exportações brasileiras, com vendas na ordem de US$ 9,4 bilhões (LOURENÇO, 2005, p. 10).
Em relação ao retorno social, ele não acompanhou o dinamismo econô- mico verificado no período. O Paraná tem o sétimo Produto Interno Bruto (PIB) per capita do Brasil, segundo o levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O PIB per capita paranaense era de R$ 15.711, acima da média nacional, de R$ 14.465. Apenas oito estados têm o PIB per capita acima da média nacional: Distrito Federal (R$ 40.696), São Paulo (R$ 22.667), Rio de Janeiro (R$ 19.245), Espírito Santo (R$ 18.003), Santa Catarina (R$ 17.834), Rio Grande do Sul (R$ 16.689), Paraná (R$ 15.711) e Mato Grosso (R$ 14.954). Já em relação ao principal indicador de desenvolvimento econômico, o IDH, o Estado apresentou 0,82, enquanto a média nacional foi 0,699, isto é, o resultado é 2,7% acima da média nacional; entretanto, ocupa o sexto lugar no ranking brasileiro (LOURENÇO, 2005, p. 11).
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2.2.1 Investimentos municipais
Os investimentos públicos são efetuados nas diversas despesas por função de Governo. Para Riani (2002), as despesas por funções obedecem a uma classificação de forma agregada que reflete as prioridades dadas pelo Governo à alocação dos recursos que lhe são disponíveis. Apesar de haver certa complexi- dade na distinção e definição precisa da aplicação dos recursos desse nível, essa distribuição dos gastos é importante para a análise das despesas públicas.
A seguir é apresentada a relação das despesas por função, as quais serão consideradas os investimentos feitos nos municípios e, portanto, os indicado- res de investimentos, os quais já foram utilizados dessa forma por Dalvachion e Mello (2012): Administração, Segurança Pública, Assistência Social, Previdência Social, Saúde, Trabalho, Educação, Cultura, Direitos da Cidadania, Urbanismo, Habitação, Saneamento, Gestão Ambiental, Ciência e Tecnologia, Agricultura, Organização Agrária, Indústria, Comércio e Serviços, Comunicações, Energia, Transporte, Desporto e Lazer e Encargos Especiais.
Agrupando as despesas de acordo com Chieza et al. (2008) e Teixeira (2005), as despesas
Gráfico 1 – Composição dos gastos municipais (Bilhões R$)
Fonte: Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (2010).
O Gráfico 1 mostra a representatividade dos gastos sociais no gasto total, em detrimento dos gastos com administração, infraestrutura e outras despesas.
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3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.1 DESCRIÇÃO DOS DADOS
Este artigo considera 341 dos 399 municípios do estado do Paraná; os demais municípios foram excluídos1 da amostra por não possuírem todos os dados necessários. As observações foram dispostas em um painel de dados balanceado.
As despesas por função foram obtidas nos relatórios contábeis e finan- ceiros da Secretaria do Tesouro Nacional (Finbra), enquanto que taxa de aprova- ção e taxa de mortalidade infantil tem como fonte o banco de dados do Ipardes, e o saldo de emprego formal foi obtido na base de dados do IBGE.
Entre os indicadores utilizados para analisar a dívida pública dos mu- nicípios,
Quanto à taxa de mortalidade infantil, coeficiente por mil nascidos vi- vos,
Quanto ao saldo de emprego formal paranaense,
Em relação ao IPDM, a média observada em 2002 foi de 0,57, em que 2,63% dos municípios apresentavam índice baixo, 59,94% índice médio baixo e 37,13% índice médio. Em 2008, a média observada foi de 0,66, em que 16,66% dos municípios estavam com índice médio baixo, 80,99% com índice médio e 2,33% apresentaram índice alto. Os resultados indicam que houve melhora significativa
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do indicador, entretanto, os dados evidenciam grandes diferenças municipais e regionais, por exemplo: em 2002, Lobato apresentou o melhor índice da amostra (0,7947), enquanto Itaperuçu apresentou o pior índice (0,3307).
Tabela 1 – Estatística descritiva das variáveis empregadas no estudo – 2002
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Variáveis |
Min. |
Máx. |
Média |
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DCL/RCL |
0,61 |
0,99 |
0,78 |
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IPDM |
0,3307 |
0,7947 |
0,5702 |
|
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Taxa de aprovação |
62,9% |
96,5% |
83,75% |
|
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Mortalidade infantil |
5,78 |
83,33 |
16,48 |
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|
Emprego formal |
29414 |
216,53 |
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Fonte: os autores. |
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Tabela 2 – Estatística descritiva das variáveis empregadas no estudo – 2009 |
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Variáveis |
Min. |
Máx. |
Média |
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DCL/RCL |
0,52 |
1,08 |
0,79 |
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IPDM |
0,4821 |
0,8509 |
0,66 |
|
|
Taxa de aprovação |
73% |
97,5% |
88,68% |
|
|
Mortalidade infantil |
2,79 |
59,70 |
12,99 |
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Emprego formal |
18.897 |
173,14 |
|
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Fonte: os autores. |
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Os dados apresentados refletem as desigualdades municipais em rela- ção às áreas de Saúde, Educação, Distribuição de Renda e Desenvolvimento Eco- nômico. Enquanto alguns municípios proporcionam saúde, educação e emprego de forma adequada à sua população, outros, por sua vez, ainda não dispõem de recursos e infraestrutura suficientes para o atendimento destas áreas.
3.2 DADOS EM PAINEL
Segundo Figueiredo (2011, p. 5), “Conjuntos de dados em painel, con- sistem de várias observações de corte transversal (cross section) mensurados em diferentes pontos no tempo (não necessariamente equiespaçados)”, ou ainda, para Frees (2004), “Dados em painel têm sido tratados genericamente como observa- ções de corte transversal empilhados ao longo do tempo.” Esse tipo de modela- gem implica que a mesma unidade observacional é medida em diferentes pontos no tempo.
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O uso de dados em painel apresenta algumas vantagens em relação a dados de corte transversal. Em primeiro lugar, esse tipo de dados fornece menor variabilidade intraobservação que entre observações. Em segundo lugar, as men- surações ao longo do tempo proporcionam uma ideia de tendência e capturam re- lações dinâmicas entre indivíduos. Em terceiro lugar, o mesmo indivíduo pode ser controlado e submetido a diferentes tratamentos, desde que o seja em diferentes momentos. No entanto, apesar destas vantagens, a utilização de dados em painel apresenta problemas de estimação e inferência, como heterocedasticidade, autocor- relação e correlação cruzada de unidades individuais no mesmo ponto do tempo.
No caso de dados em painel, o vetor y tem como elemento típico yit o valor da variável Y na
Onde ci é o efeito individual de cada observação. O efeito individual é uma variável aleatória que carrega características intrínsecas do indivíduo, logo, ci deve ser mantido constante ao longo do tempo.
Considerando que o modelo de painel de dados consegue acomodar o efeito espacial representado pela heterogeneidade espacial, existem duas possibili- dades de modelagem: modelo de dados em painel com efeitos fixos e com efeitos aleatórios. O modelo de efeitos fixos
A escolha do modelo mais apropriado é feita por meio do teste de Haus- man, o qual segue uma distribuição χ2 assintótica e considera duas hipóteses: H0: efeitos aleatórios são consistentes e H1: efeitos aleatórios não são consistentes.
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4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Para analisar a relação entre a dívida pública e os investimentos muni- cipais nas diversas funções do Governo, e a relação existente entre a dívida pú- blica e o desenvolvimento econômico, foram utilizados dois modelos. O primeiro modelo usa como variável dependente a DCL/RCL e como variáveis indepen- dentes as 23 despesas por função. O segundo modelo usa o IPDM como variável dependente e as seguintes variáveis independentes: endividamento (DCL/RCL), taxa de aprovação (1ª a 4ª séries), mortalidade infantil e saldo do emprego formal.
O modelo n. 1 foi estimado considerando todas as variáveis independentes, porém, nem o modelo nem as variáveis analisadas individualmente apresentaram signi- ficância. Dessa forma, foi necessário fazer sucessivas exclusões de variáveis até encontrar um modelo que fosse significativo e que as variáveis individualmente apresentassem po- der de explicação ao endividamento. Nesse sentido,
Mediante o teste de Hausman, o modelo de efeitos aleatórios foi com- parado ao modelo estimado por efeitos fixos. A hipótese nula do teste de que não há diferença sistemática nos coeficientes estimados pelos dois métodos (e, por- tanto, as estimativas por efeitos aleatórios seriam consistentes) é rejeitada com 1% de significância. Assim, o teste indicou que a melhor escolha é a modelagem por efeitos fixos em detrimento do modelo que considera efeitos aleatórios.
A Tabela 3 apresenta o resultado da regressão com efeitos fixos para o modelo 1.
Tabela 3 – Regressão com efeitos fixos para o modelo n. 1
Variáveis |
Coeficiente |
Erro padrão |
P>|t| |
|
|
|
|
Previdência social |
0,274 |
||
Urbanismo |
0,024 |
||
Cultura |
0,079 |
||
Gestão ambiental |
0,101 |
||
Saneamento |
0,027 |
||
Constante |
0,8001492 |
0,0013694 |
0 |
|
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|
Fonte: os autores. |
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Os resultados indicam que as variáveis relativas às despesas com ur- banismo e gestão ambiental são significativas e apresentam os coeficientes com o sinal esperado (positivo). Assim,
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mentos municipais nessas áreas contribui para o endividamento dos municípios paranaenses. Por outro lado, as variáveis relativas às despesas com cultura e sane- amento são significativas, mas não apresentam o sinal esperado, isto é, o aumento nos investimentos municipais em tais áreas diminui o endividamento municipal.
Para o modelo n. 2, o teste de Hausman demonstrou que o modelo de efeitos fixos é o mais apropriado para a análise da amostra. A Tabela 4 mostra os resultados da regressão com efeitos fixos para o modelo.
Tabela 4 – Regressão com efeitos fixos para o modelo n. 2
Variáveis |
Coeficiente |
Erro padrão |
P>|t| |
|
|
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|
Endividamento |
0,0642072 |
0,0151415 |
0,000 |
Taxa de aprovação |
0,0046978 |
0,0002508 |
0,000 |
Mortalidade infantil |
0,0000759 |
0,000 |
|
Emprego formal |
0,004 |
||
Constante |
0,1985808 |
0,0237527 |
0 |
|
|
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|
Fonte: os autores. |
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Os resultados indicam que as variáveis relativas ao endividamento, taxa de aprovação e emprego formal foram significativas e apresentaram o sinal esperado (positivo). Desse modo,
Os resultados também indicam que o endividamento, a taxa de apro- vação, a mortalidade infantil e o emprego formal são variáveis explicativas do IPDM e têm impactos esperados sobre o indicador. O fato de o endividamento ter impacto positivo sobre o desenvolvimento dos municípios do Paraná indica que os municípios estão gastando os recursos de forma eficiente, uma vez que o endividamento está se refletindo em melhora das condições da população.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Analisando as variáveis individualmente,
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dor de endividamento DCL/RCL, no período analisado.
Em relação ao primeiro objetivo, o modelo mais adequado mostrou que ao nível de 5% de significância, o saneamento e o urbanismo explicam individual- mente o endividamento, porém, se elevarmos para 10% o grau de significância, a cultura e a gestão ambiental também apresentam poder explicativo para o endivi- damento.
Quanto ao segundo objetivo,
Portanto, considerando os resultados apresentados,
The relationship between public debt and economic development of the pa- ranaense municipalities: evidence for the period of 2002 to 2010
Abstract
This article analyzes the relationship between government debt and municipal invest- ments in the various functions of government, and the relationship between public debt
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and economic development of the municipalities Paranaenses, through the indicator that represents the relationship between the Consolidated Net Debt and Net Current Revenue (CND/NCR) and Municipal Development Index Ipardes (MDII) for the years 2002 to 2010. To achieve this aim, two econometric models were constructed, using a statisti- cal metric of Panel Data. Regarding the first objective, the results indicate that, at 10% significance level, urbanization, sanitation, culture and environmental management are explanatory variablesof indebtedness. Regarding the second objective, the results indicate that the CND/NCR and MDII are positively correlated, ie, the higher the municipal debt, the greater the value of the indicator MDII. In this sense, considering that indicators of socioeconomic development are indexes that express the quality of life and the munici- pal debt is an important tool to achieve this goal.
Keywords: Public debt. Economic development. Paranaenses Municipalities.
Nota explicativa:
1Por falta de dados, ficaram de fora da análise os Municípios de Alvorada do Sul, Alto do Paraíso, Antonina, Araucária, Borrazópolis, Braganey, Catanduvas, Cerro Azul, Colombo, Congoinhas, Curiuva, Dois Vizinhos, Doutor Ulysses, Engenheiro Beltrão, Figueira, For- mosa do Oeste, Goioerê, Guaiaraca, Guaraniaçu, Guaraqueçaba, Icaraíma, Imbau, Itauna do Sul, Jaguariaiva, Jandaia do Sul, Jundiaí do Sul, Laranjal, Lunardelli, Mandirituba, Marilândia do Sul, Marilena, Miraselva, Nova América da Colina, Nova Santa Barbara, Ourizona, Paranacity, Pinhais, Pinhão, Presidente Castelo Branco, Quinta do Sol, Rancho Alegre, Rancho Alegre d’ Oeste, Rio Branco do Ivaí, Roncador, Salto do Itararé, Santa Amélia, Santa Cecília do Pavão, Santa Mariana, Santa Mônica, São João do Triunfo, Terra
Boa, Toledo, Tunas do Paraná, Tupassi, Uraí e Virmond.
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Recebido em 30 de janeiro de 2014
Aceito em 22 de abril de 2014
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