ÉTICA, DEMOCRACIA E CIDADANIA: UMA ANÁLISE DOS DESAFIOS DE INTEGRAÇÃO DOS REFUGIADOS SÍRIOS NA UNIÃO EUROPEIA NO SÉCULO XXI
Resumo
A ética orienta a conduta humana ao distinguir o certo do errado, enquanto a cidadania assegura o exercício de direitos e deveres e a participação social por meio da democracia, que distribui o poder entre o povo (Ferreira, 2010). Esses conceitos sustentam o respeito à dignidade humana, a participação nas decisões coletivas e a construção de sociedades mais justas e solidárias. No século XXI, esses princípios ganham ainda mais relevância diante da crise humanitária de refugiados e do aumento do fluxo migratório global. Entre 2010 e 2024, cerca de 2,3 milhões de pessoas no Brasil e 123 milhões no mundo foram forçadas a se deslocar devido a guerras, perseguições, desigualdades e mudanças climáticas (ACNUR, 2025; UNICEP, 2024; MJSP, 2024).
Nesse contexto, emerge a seguinte problemática: como equilibrar a responsabilidade ética de acolher refugiados com as limitações sociais e econômicas dos países receptores? Para responder a essa questão, a pesquisa buscou analisar os principais desafios enfrentados por refugiados sírios em um país da União Europeia, identificando obstáculos e possibilidades de integração que garantam tanto a proteção dos direitos humanos quanto o fortalecimento da cidadania. A pesquisa se justifica devido à necessidade de ampliar o debate social acerca de políticas de acolhimento mais eficazes, capazes de promover inclusão e reduzir tensões em cenários de crise migratória.
A pesquisa caracterizou-se como descritiva, de revisão bibliográfica e com abordagem qualitativa. Utilizou-se os periódicos da CAPES, para busca de artigos, por meio dos termos chaves "Refugiados" e "Políticas Públicas”. Além disso, foram consultados canais de notícias e sites de organizações humanitárias, a fim de reunir reportagens e publicações alinhadas ao tema e aos objetivos da pesquisa.
Segundo a CNN Brasil (2024), a guerra civil na Síria desencadeou a maior crise de migrantes e refugiados da atualidade, forçando mais de 13 milhões de pessoas a deixarem suas casas. Dessas, cerca de 7 milhões buscaram abrigo em países como Turquia, Líbano, Jordânia e em nações europeias, enquanto 6,7 milhões se deslocaram internamente, gerando profundas mudanças demográficas.
A entrada de refugiados na Europa ocorre, muitas vezes, por travessias ilegais e perigosas, dada a falta de rotas seguras. Como resposta, houve reforço do policiamento nas fronteiras. Apesar de existirem iniciativas de acolhimento, os países europeus exigem a formalização do pedido de asilo para garantir a permanência legal (O Globo, 2015). Em abril de 2024, o Parlamento Europeu aprovou o “Pacto de Migração e Asilo”, que busca tornar a gestão migratória mais rigorosa. Estruturado em quatro pilares, o pacto visa agilizar processos de segurança e conter a imigração irregular do Oriente Médio e da África (Comissão Europeia, 2024; G1, 2024).
Os refugiados sírios enfrentam diversas dificuldades como barreiras linguísticas e culturais, preconceito, xenofobia e restrito acesso a saúde, educação, moradia e trabalho formal. Mesmo com formação superior, a não validação de diplomas leva muitos ao subemprego e à exclusão social (ACNUR, 2024). Esses desafios envolvem o pleno exercício da cidadania e a efetivação dos direitos humanos. Quando a cidadania se limita ao pertencimento nacional, pessoas vulneráveis tornam-se invisíveis, ainda que amparadas por tratados internacionais.
Bauman (2017), em seu livro “Estranhos à nossa porta”, argumenta que as sociedades de destino vivem um pânico moral diante da crise migratória e da fadiga com a tragédia dos refugiados. Esses indivíduos são vistos como “estranhos” por apresentarem comportamentos e culturas diferentes, gerando medo e insegurança. O autor defende a valorização da solidariedade, do diálogo e da convivência com o diferente, reconhecendo a diversidade como parte essencial da experiência humana.
Para enfrentar essas barreiras, propõe-se que a sociedade civil assuma um papel ativo na integração dos refugiados. Sugere-se que organizações não governamentais, universidades, coletivos e empresas ofereçam cursos de idiomas, capacitações profissionais, redes de acolhimento e programas culturais, contribuindo para superar resistências sociais. Também é necessário investir na formação de agentes públicos para ampliar o conhecimento sobre os direitos de refugiados e incentivar ações que promovam convivência pacífica. Medidas como incentivo ao empreendedorismo, flexibilização da revalidação de diplomas e campanhas de sensibilização social podem fortalecer a inclusão.
No campo das políticas públicas, Amorim e Barros (2020) ressaltam que a proteção aos refugiados é responsabilidade global que exige cooperação entre os Estados. Embora tratados internacionais reconheçam esses direitos, sua efetivação depende da vontade política e da capacidade econômica de cada país, gerando desigualdades no acolhimento. Os autores propõem a criação de um padrão mínimo existencial, capaz de assegurar condições básicas de vida aos refugiados mesmo em contextos de escassez de recursos.
Diante do exposto, conclui-se que enfrentar os desafios migratórios do século XXI exige uma abordagem que una ética, democracia e cidadania em perspectiva global. A efetivação dos direitos humanos vai além de tratados internacionais, dependendo da implementação de políticas públicas consistentes, do engajamento da sociedade e do fortalecimento dos valores democráticos. Transformar o deslocamento forçado em oportunidade de recomeço implica reconhecer os refugiados como sujeitos de direitos e agentes de desenvolvimento cultural, social e econômico nas comunidades que os acolhem.
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